31 de março de 2012

RAMIRO MUSOTTO: O BERIMBAU REINVENTADO





BERIMBAU X SUSTENTABILIDADE

Vivemos numa época em que a utilização de qualquer material diretamente proveniente da natureza é questionada, depois que a humanidade despertou para a ameaça da escassez de recursos naturais, o que demandaria a concretização de ações não apenas de preservação mas de realimentação dos processos vivos que garantam a oferta desses recursos, além da parcimônia no seu uso, evitando ao mesmo tempo o desperdício e a ambição pelo lucro.
A gestão consciente dos recursos naturais é uma demanda da moderna economia cultural e da tão propalada sustentabilidade, um tema ainda embrião, no Brasil.

O caso da biriba (Eschweilera ovata – Lecythidaceae – Folhosa 'Hardwood') não é exceção. Considerada a melhor madeira entre as diversas espécies já utilizadas para a confecção do berimbau, a biriba vem sendo ininterruptamente colhida na floresta há muito tempo, sem que se pense num processo de replantio. O mesmo vale para as cabaças, (Lagenaria siceraria (Molina) Standl) principalmente as do tipo 'coité', (Crescentia cujete L.) avaliadas por construtores de berimbaus e músicos como a mais apropriada. Resta ainda incluir aqui o caxixi, acessório essencial do berimbau da capoeira, que é feito com a palha de vime e sementes, e as baquetas, extraídas de diferentes espécies de madeiras.
Isso vem se constituir, além de uma questão cultural, em uma questão ambiental de grande importância. A Capoeira é reconhecida hoje como patrimônio cultural brasileiro, consequentemente o berimbau e seus acessórios merecem atenção especial, o que ainda se verifica em pequena escala.

O tradicional berimbau, feito do arco de madeira natural precisa ser montado e desmontado a cada utilização, para não ter comprometida a flexibilidade e não sofrer o arqueamento definitivo, o que diminuiria sensivelmente a tensão da corda de aço. Os tocadores de berimbau dominam perfeitamente essa técnica. Obviamente, estamos falando do berimbau profissional, não das peças decorativas vendidas como souvenir turístico.

BERIMBAU, RECURSO DE ESTÚDIO

Goli Guerreiro, no segundo volume do seu livro Terceira Diáspora, traz um depoimento interessante de Ramiro Musotto sobre a experiência com os berimbaus, que vale a pena transcrever aqui:
“Tinha uma época aqui em Salvador que eu 8 da manhã estava no estúdio e comecei a entender toda uma lógica das notas em relação ao tamanho do berimbau... Então eu comecei – ah velho eu vou começar a comprar – eu encomendei assim de um metro até dois e comecei a comprar famílias, então
comecei a cortar e consegui berimbaus grandes de até três metros e aí comecei a me apaixonar por aquela gama de sons inéditos que surgiam ali. (...) Walmir é o cara que você pode chegar e escolher a biriba, ele tem milhões de tipos de madeira, ele te explica... E quando eu comecei a gravar muito no estúdio, eu comecei a gravar berimbau também” [Ramiro Musotto].
(Goli Guerreiro: terceira diáspora - o porto da bahia  salvador da bahia p.38)

OS BERIMBAUS USADOS POR RAMIRO MUSOTTO

Mestre Lourimbau é conhecido em Salvador como um dos mais competentes artesãos do berimbau, que pesquisa, colhe e processa pessoalmente todos os materiais utilizados na sua confecção. Ele usa apenas cabaças de coité e produz os modelos gunga, berra-boi, uruçuca e violinha. No encarte do seu primeiro CD, o Lourival afirma ter dado aulas e fornecido berimbaus a Ramiro Musotto. 
"Dentre os clientes mais famosos de Lourimbau estão Hermeto Paschoal, Naná Vasconcelos, Carlinhos Brown, Marcos Suzano, Carlinhos Cor das Águas, Charles Negrita (Novos Baianos), Baixinho Novos Baianos, Ary Dias (A Cor do Som) e Ramiro Musotto, já falecido, e que também tomou aulas." (Do encarte do CD Arte de Mestre Lourimbau).
Essa declaração é ratificada em matéria no site da SECULT/BA [http://www.cultura.ba.gov.br/2010/11/12/mestre-lourimbau-lanca-cd-no-teatro-sesi-do-rio-vermelho/]
Ramiro não cita essa informação. Na ficha técnica do CD Civilizacao & Barbarye consta: "Tocamos berimbaus de madera de Valmir das Biribas y berimbaus de alumínio de Lumar, de Luis Arcodaci."
Portanto, os berimbaus de Valmir das Biribas eram preferidos pelo percussionista para usar em estúdio e nas turnês.
Temos aqui um vídeo registrado pelo Programa Decola, em 2007, que mostra Ramiro Musotto indo ao encontro de Valmir em Cacha-Prego, na Ilha de itaparica, em busca das biribas ideais para a confecção de berimbaus de grande porte, destinados a integrar o set de berimbaus a serem usados pelo músico:






SURGE O BERIMBAU SINTÉTICO AFINÁVEL

Uma das contribuições mais relevantes à técnica construtiva dos berimbaus foi sem dúvida a criação de protótipos do Berimbau Sintético Afinável, (também chamado de berimbau cibernético) por Luis Maria Arcodaci (LUMAR), a partir da demanda do músico Ramiro Musotto e com a sua atenta consultoria e experimentação. Os modelos criados por LUMAR proporcionam diversos aperfeiçoamentos da performance sonora e dispensam a necessidade de ser desmontados pois póssibilitam a tensão permanente da corda.
O engenheiro Luis Maria Arcodaci veio de Punta Alta, Argentina, para morar em Salvador, na Bahia em 1987.
Amigo de infância de Ramiro Musotto, eram na verdade  quase primos. O seu interesse por música e principalmente a sua grande afeição a Ramiro o fez desenvolver alguns projetos de aperfeiçoamento para o berimbau, instrumento que já era uma fixação para o percussionista mesmo antes de vir para o Brasil. Musotto sempre teve em Naná Vasconcelos uma referência musical.
O trabalho investigativo e construtivo com os berimbaus teve início por volta de 1994, quando Ramiro apresenta entusiasmado o resultado do arranjo feito para o disco da cantora Margareth Menezes, no qual ele utilizou berimbaus de proporções diferentes, obtendo um efeito inédito e surpreendente.
Eles começam a pensar em berimbaus de múltiplas cordas, e nas adaptações que seriam necessárias, pois Ramiro já tinha em mente o projeto da Orquestra de Berimbaus, mas parecia difícil ter de trabalhar com os berimbaus tradicionais, instrumentos que tinham de ser montados e desmontados, e cujas características dificultavam a obtenção e manutenção da afinação.
Aproximadamente dez anos depois, Arcodaci já tinha conseguido desenvolver o que ele chama de "Berimbaus Melhorados", seguindo-se o projeto do "Novo Berimbau", um instrumento de material sintético, dimensionado e produzido visando diferenciar escalas superior e inferior, sons harmônicos, afinação constante e principalmente, dispensar a necessidade de desmontar o sistema arco/corda/cabaça. Já nos recitais ao vivo do álbum Sudaka, Ramiro estaria apresentando o Novo Berimbau, e em 2008, com a Orquestra de Berimbaus.
Vejamos um pouco da descrição dos modelos dos berimbaus, conforme o relato de Arcodaci: (Blog La Casa de las Voces - Historias y sentidos en la vida y obra de Ramiro Musotto - Diego Oscar Ramos)
- Berimbaus Melhorados - Modelos LUMAR  BM1 e BM2. Feitos de biriba e dotados de acessórios.   
(LUMAR corresponde às iniciais de Luis Maria Arcodaci, BM correponde a "Berimbau Melhorado")
Nesses instrumentos, Arcodaci se concentrou nos aspectos de sustain, amarração da corda, pontes, afinação, entre outros.
Um detalhe importantíssimo: para reduzir o comprimento da corda de aço, consequentemente o do arco e ainda assim alcançar um timbre mais grave, LUMAR idealizou o sitema das cordas de aço enroladas, como as cordas do piano.
-  O BM1 tem as pontes metálicas e amarração inferior diferenciada; 
- O BM2 tem tarracha de contrababaixo (para afinar), pontes metálicas e cordas intercambiáveis.
Ramiro experimenta o primeiro berimbau BM1

Já o berimbau catalogado como BM3 surgiria após o NB, de alumínio, introduzindo o sistema de afinação através de pontes metálicas em um berimbau de biriba.
- Berimbaus de aluminio Modelos LUMAR NB1. Com pontes metálicas, afinação e cordas intercambiáveis.
(NB correponde a "Novo Berimbau").
 
Descrição do Berimbau Sintético Afinável criado por Luis Maria Arcodaci, conforme patente requerida pelo mesmo:

"Berimbau sintético afinável. Patente de modelo de utilidade para um berimbau fabricado com materiais sintéticos, compreendido pelo corpo em tubo de alumínio anodizado, recheado com espuma de poliuretano expandido, pontes de aço, fixadas com massa de resina, corda de aço carbono de alta resistência à tração, com olhal, instalada entre o ponto de engate e o gancho do tensor giratório, montado no suporte, todos fabricados em aço, onde é instalada a cabaça, fabricada com resina reforçada com fibra de vidro e o cordão da cabaça composto de fibras sintéticas de alta resistência. Todos estes componentes e a técnica de utilização dos mesmos, proporcionam características estáveis, facilidades na montagem e afinações precisas, habilitando o berimbau sintético afinável como um instrumento de orquestra."
[http://www.patentesonline.com.br/berimbau-sintetico-afinavel-199366.html#resumo]
Croquis descritivo da patente requrida
WAYNA PICHU: UM BERIMBAU DE TRÊS BRAÇOS

Entre os berimbaus de alumínio, destaca-se o que foi batizado por Arcodaci de Wayna Picchu, (montanha jovem, em língua quechua). Ele o descreve como seu "antigo sonho realizado", depois de mais de dez anos de incubação. Possui 3 braços, cada um com uma corda separada, e é afinado em escala pentatônica maior. No total, o berimbau produz 9 notas, algumas repetidas em diferentes oitavas.
Luis Maria Arcodaci e o berimbau Wayna Picchu
Wayna Picchu:
Escala pentatônica maior de Mi

Braço 1: (Médio/Semi-Low, hibrido, com entonação em ¼)
DON: F2#, DIN: G2# e PIN: C4#

Braço 2: (Médio com entonação em ¼)
DON: B2, DIN: C2# e PIN: F4#

Braço 3: (Violão com entonação em ¼)
DON: E3, DIN: F3# e PIN: B4





http://www.youtube.com/watch?v=25lZRA9nzyU 

Além de ter contado com Ramiro Musotto como inspirador, consultor, experimentador e endorser, Luis Maria Arcodaci teve a oportunidade de presentear um berimbau LUMAR de alumínio ao grande percussionista brasileiro Naná Vasconcelos, na mesma noite em que Ramiro e Naná finalmente tocaram juntos no palco do Teatro Castro Alves, no dia 15 de julho de 2008.

A festa em homenagem ao reconhecimento da Capoeira como patrimônio cultural brasileiro terminou sendo também uma festa para Arcodaci e Ramiro, ele que sempre sonhou em dividir alguns momentos musicais com o seu grande inspirador.



 
 
http://www.youtube.com/watch?v=RjmpVjoQqEQ
 

Ramiro Musotto e o berimbau Wayna Pichu

UM MONUMENTO EM HOMENAGEM A RAMIRO MUSOTTO

Em setembro de 2011 Luis Maria Arcodaci convidou André Costa, técnico  em instrumentação industrial, para desenvolver a concepção de um monumento em Autocad 3D em homenagem Ramiro Musotto, a ser construído na Argentina.
A partir de fotografias de Ariel Sabatella, André desenvolveu uma projeção em que é dado destaque ao perfil do percussionista na inconfundível posição de combate com que ele executava o berimbau, além de apresentar um enorme berimbau inteiramente de metal, sugerindo imediatamente os berimbaus de alumínio desenvolvidos por LUMAR, em conjunto com Ramiro Musotto.


Um breve relato do projeto elaborado  pode ser visto no blog do técnico:
[http://lrcad.blogspot.com.br/2011/10/ramiro-mussotto.html]

Um vídeo com a visualização em 3D do projeto do monumento está disponível no canal de lumarbahia no YouTube:
[http://www.youtube.com/watch?v=X8D7uiHfy0E]










Visualização em 3D - Projeto do Monumento a Ramiro Musotto - Lumarbahia
Um destaque desse vídeo é a diferente versão da composição Ronda Melodia, de Ramiro Musotto, executada com a Orquestra de Berimbaus.



RAMIRO MUSOTTO: O BERIMBAU REINVENTADO
http://tempomusica.blogspot.com.br/2012/03/ramiro-musotto-o-berimbau-reinventado.html

RAMIRO MUSOTTO: A VOZ DO BERIMBAU
http://tempomusica.blogspot.com.br/2012/02/ramiro-musotto-voz-do-berimbau.html

 
Fontes:
Blog La Casa de las Voces - Historias y sentidos en la vida y obra de Ramiro Musotto - Diego Oscar Ramos 
Livro Goli Guerreiro: terceira diáspora - o porto da bahia - salvador da bahia 
Programa Decola, 2007
http://www.youtube.com/watch?v=cvH9k38jX0o 

Blog http://lrcad.blogspot.com.br/2011/10/ramiro-mussotto.html
Site Patentes Online.Com.Br
Site Facebook de Bocha Caballero (imagens)

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