19 de julho de 2012

DUPLAS E TRIOS VOCAIS DA BAHIA - TRIO XANGÔ

No início da década de 1960, seguindo a febre dos conjuntos vocais, que predominou por muito tempo em todo o Brasil, havia no Largo do Godinho o Trio Xangô, com Janjão, Pimentel e Ari, Segundo o relato de Thiago Rocha e Zé Raimundo. (*)
O Largo do Godinho, no bairro da Saúde, local caracterizado pelo seu casario tradicional e pelo antigo calçamento de pedras "cabeça de nego", semelhante ao do Pelourinho, guarda histórias que só os moradores mais antigos sabem contar. Havia também na localidade o trio  Os Praianos, formado por Tacyr, Raimundo José e Carlito Canarinho. Já no bairro do Santo Antônio, Os Irapuãs e o Trio Piratini eram grupos que harmonizavam as vozes ao estilo dos famosos trios vocais como o Trio Irakitan, Tamba Trio, Marayá, e uma infinidade de outros.
(*) Site do grupo Vocal carnavalesco Paroano Sai Milhó, de Salvador. (http://paroano.com.br/)

O Trio Xangô nos estúdios JS

Capa e contracapa do compacto duplo Menino de Invasão, do Trio Xangô

Contracapa do compacto duplo Menino de Invasão, do Trio Xangô - JS Discos
Apresentação do Trio Xangô por Jorge Randam, na contracapa do compacto duplo:
"O prazer de uma apresentação, consiste na afirmação de qualidades positivas do que se pode garantir com satisfação! No caso presente há uma dupla satisfação. Apresentar o TRIO XANGÔ ao público discófilo é relembrar com prazer o dia em que fomos solicitados a ouvir três rapazes que acabavam de compor o mais novo "trio", dentro do movimento novo da música baiana. Não tivemos dúvidas em promover o seu "debut" pela TV Itapoan e chamar a atenção dos produtores para o valor dos rapazes, no estímulo necessário ao aprimoramento que os senhores constatarão nas quatro músicas que compõem este compacto da "JS". Apresentá-los portanto, é a complementação daquele dia. O TRIO XANGÔ é assim o fruto da tenacidade, do amor, da seriedade com que os jovens encaram a música popular. Observem o carinho com que foi feito este compacto. Notem os arranjos do jovem maestro Carlos Lacerda, ilustrando as belas harmonizações do TRIO XANGÔ. As músicas são todas elas de autores baianos: na face "A", temos a expressiva "Saudade", de Antônio Carlos Mascarenhas, um dos integrantes do Trio e "Laurinha", terna "bossa" de Carlos Lacerda para todos os gostos. A primeira faixa do lado "B", faz o lançamento do jovem Raymundo José de Souza como compositor, apresentando "Capoeira", tema regional mesclado de romance, que contou com o talento de Alcyvando Luz (piston); Djalma Correia (bateria); Everaldo (violão) e Orlando (contra-baixo), num arranjo totalmente inovado... Por último, atentem para a discutida e bela composição de Fernando Lona e Geraldo Portela, "Menino de Invasão" que dá título ao compacto.
O "TRIO XANGÔ" surge assim auspiciosamente! E ao apresentá-lo ao público, o fazemos com os dedos indicador e médio cruzados, numa "figa" de quem lhes deseja um grande sucesso, bem do tamanho do seu talento!
José Jorge Randam."
Trio Xangô
Compacto Duplo Menino de Invasão (N/D) JS Discos CJ-1004

Selos dos vinis do Trio Xangô - JS Discos CJ - 1004

FAIXAS:
LADO A
1. Saudade (Antônio Carlos Mascarenhas)
2. Laurinha (Carlos Lacerda)
LADO B
1. Capoeira (Raymundo José de Souza)
2. Menino de Invasão (Fernando Lona / Geraldo Portela)


MÚSICOS:
Alcyvando Luz: Trompete
Djalma Corrêa: Bateria
Everaldo: Violão
Orlando: Contrabaixo acústico
Arranjos: Carlos Lacerda


Saudade
Composição: Antônio Carlos Mascarenhas
Interpretação: Trio Xangô

Saudade
Espinho amargo de uma flor chamada amor
Que vai crescendo e trazendo tanta dor
Deixando a gente triste

Saudade
Lembrança triste de alguém que não se vê
A gente sofre tanto, tanto até morrer
Se este alguém é você

Saudade
É ver em tudo um pouquinho de você
Ouvir o vento, ver o mar é ver você
É se viver, morrer, lembrando alguém que se amou



 

Laurinha
Composição: Carlos Lacerda
Interpretação: Trio Xangô


Laurinha
Esse jeito de tristeza
Esse olhar que é só beleza
Lembrando a paz do mar

Laurinha
Um andar que nem caminha
Quando chega bem sozinha
Balançando igual ao mar

Laurinha
Só de ver você sozinha
Penso até que outra Laurinha
Vai chegar igualzinha pra mim

Que não olhe pra ninguém
Que não seja de ninguém
Que haja amor no teu olhar
Um perdão em cada olhar
Que não deixe mais ninguém te chamar
Laurinha
Vinil e envelope do compacto Menino de Invasão

Capoeira
Composição: Raymundo José de Souza
 
Interpretação: Trio Xangô

Capoeira, berimbau
Capoeira, berimbau

Canto e não vem alguém
Capoeira lá de dentro
Tá chamando prá brincar
Capoeira é seu bem
Berimbau quem vai gostar

Berimbau vive feliz
Tem amor pra dar a alguém
O seu canto é capoeira
O seu sonho e querer bem

Eu não tenho a quem amar
Vivo só sem ter um bem
Canto meu triste lamento
Canto e não vem alguém


O solo do trompete de Alcyvando Luz no início e no final da música é o maior destaque dessa interpretação, que conta ainda com a bateria de Djalma Corrêa, em arranjo do maestro Carlos Lacerda.
O final, quando o trompete repete, esmaecendo, o motivo melódico de duas notas em segunda maior ascendente, é uma dica para descobrir pelo menos o período em que foi feita a gravação, não datada. É evidente a influência não só de Baden Powell como de Jorge Ben e de alguns dos compositores da era dos Festivais de MPB.
Baden e Vinicius compuseram e gravaram Berimbau no início da década de 1960 (composta em 1962 e gravada em 1963).



Menino de Invasão
Composição: Fernando Lona / Geraldo Portela
Interpretação: Trio Xangô

Olhe o menino pobre que desce da ponte, vem lá da invasão
Sabe jogar capoeira, é bom na rasteira, aprendiz de ladrão

Chorar, menino prá que
Espera o novo dia amanhecer

Então cantarás
Cantigas de não esquecer
Na Cirandinha
No Demarré
Sorri, menino sorri

Menino de Invasão é sem dúvida, a melhor composição e o melhor arranjo desse disco.
O nível geral das músicas é de uma ingenuidade e uma prática imitativa evidentes, mesmo na música composta por Carlos Lacerda. A técnica vocal dos rapazes é boa, ressalvando alguns deslizes de harmonia ou de afinação. Levando-se em conta a época do registro, em que gravar um disco era tarefa muito mais difícil, principalmente sem sair de Salvador, deve-se dar o desconto das deficiências técnicas; validar o interesse desses jovens pelo canto e em exercer a composição e interpretação vocal-instrumental de forma não profissional e antes mesmo do processo de afirmação de mercado e da indústria do disco, que viria na década seguinte.

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