2 de fevereiro de 2012

RAMIRO MUSOTTO: A VOZ DO BERIMBAU

A VOZ DO BERIMBAU (EM PROCESSO)
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A partir do do momento em que adquiriu domínio do berimbau, Ramiro Musotto não perderia nenhuma oportunidade de introduzir o som desse instrumento nos arranjos que faria, como pode ser nos álbuns dos mais diversos artistas com quem ele trabalhou, quer produzindo, arranjando ou simplesmente tocando, em estúdio ou em turnês. De 1984 a 1989 foi tempo suficiente para que Ramiro já tivesse aprendido quase tudo com os mestres de Capoeira, com os capoeiristas de rua, tornando-se exímio tocador de berimbau.

O primeiro fonograma em que identificamos o berimbau tocado pelo Ramiro é a faixa Odará, do disco de estréia de Rey Zulu (Minhas Origens, 1989). Nesse arranjo, o percussionista executa um berimbau que em quase nada se diferencia daquele normalmente tocado na Capoeira. Mas já seria o suficiente.

Odará (Rey Zulu-Cidinho-Robertinho), LP Minhas Origens, 1989)

BERIMBAU HARMÔNICO
Já no álbum Um Canto Pra Subir, o segundo de Margareth Menezes (1991), ele utiliza, num dos arranjos, apenas berimbaus afinados, kalimba e percussão de tambores (batidão no estilo do Ilê Aiyê), como pano de fundo para a voz. A faixa é Hino das Águas (Buzziga / Haroldo Medeiros). Ramiro conta que empregou 3 berimbaus de tamanhos diferentes, afinados em Lá, em 3 distintas oitavas.

Hino das Águas (Buzziga/Haroldo Medeiros) - Margareth Menezes, disco Um Canto Pra Subir (1991)

No terceiro disco de Margareth (Luz Dourada, 1993), Ramiro elabora um arranjo mais arrojado para a composição de Caetano Veloso: Chegar à Bahia. Ele relata que afinou os berimbaus em intervalos de terças e quintas, a partir da tonalidade principal da canção. Isso funciona como um completo acompanhamento, uma harmonização sem guitarras ou teclados, sob a marcação compassada do udu (moringa).


Chegar à Bahia (Caetano Veloso) - Margareth Menezes, disco Luz Dourada (1993)

Mas é no CD Sol Negro (1997), da cantora baiana Virgínia Rodrigues, produzido por Celso Fonseca e com direção artística de Caetano Veloso, que se encontra o mais contundente exemplo dos berimbaus harmônicos. A canção é Noite de Temporal. Uma preciosa releitura do compositor Dorival Caymmi, que na gravação original imprime seu canto acompanhado do inconfundível violão de cordas de aço. As cordas aqui são dos berimbaus de Ramiro Musotto.

Noite de Temporal - Virgínia Rodrigues, CD Sol Negro (1997)

Escutando a gravação de Virgínia Rodrigues, percebemos que o arranjo e a instrumentação utilizada na faixa não tem muito a ver com os demais arranjos, feitos por Eduardo Souto Neto, para este álbum. Aí com certeza tem a mão de Ramiro Musoto.
Músicos da faixa:
Celso Fonseca: Berimbau/Percussão
Ramiro Musotto: Berimbau/Percussão
O resultado dessa faixa é algo que simplesmente não pode ser encontrado nem antes e nem depois, considerando toda a música já feita por aqui. Não sabemos dizer no primeiro instante se é música regional, ou uma experiência musical contemporânea, temperada por efeitos eletrônicos. Ouvimos ali berimbaus, graves, médios e agudos, "preparados por Ramiro". Um golpe grave marca o tempo forte dos compassos. 
(A gravação original dessa canção foi realizada por Caymmi em 1959 e lançada em 1960. Traz Caymmi em violão e voz, e tem a produção de Aloysio de Oliveira).

É noite, é noite
Ê lamba ê hê lambaio

Pescador não vá pra pesca

Pescador não vá pescar
Pescador não vá pra pesca

Que é noite de temporá

É noite, é noite

Ê lamba ê hê lambaio


Pecador se vai pra pesca
Na noite de temporá
A mãe se senta na areia
Esperando ele vortar


É noite, é noite, é noite...

Em Um Tom, (Caetano Veloso, CD Livro/1997) os berimbaus lembram o som de um antigo relógio, seguido pela kalimba e o carrilhão (tubullar bells), para depois estabelecer a base rítmica onde ainda entram agogôs de afoxé, essa música é muito rica na sua instrumentação. O arranjo, coletivo, deve ter tido uma boa participação de Ramiro Musotto




Um Tom (Caetano Veloso, CD Livro/1997)     
Músicos da faixa:          
Jota Moraes: Marimba/Vibrafone
Luiz Brasil: Berimbau/Tambor/Palmas            
Marcelo Costa: Talking Drum/Block/Tambores/Berimbau/Palmas            
Pinduca (Luiz Anunciação): Carrilhão            
Ramiro Musotto: Berimbau/Kalimba/Samplers de Tambores/Palmas            
Arranjo: Caetano Veloso/Jaques Morelenbaum/Músicos participantes

No disco Volume Dois, dos Titãs (CD/1998) a canção Miséria (Arnaldo Antunes/Paulo Miklos/Sérgio Britto) é instrumentada com muitas cordas de arco, sopros e muita percussão. Ramiro trabalhou bastante, portanto. O berimbau de Ramiro entra numa  selvageria roqueira, logo depois de algumas frases trocadas com o banjo de Liminha e Paulo Miklos. Verdadeiros culpados pelo arranjo: Eumir Deodato/Liminha/Titãs.



Miséria (Arnaldo Antunes/Paulo Miklos/Sérgio Britto)
Titãs,
disco Volume Dois (CD/1998)

Passamos agora por Eletrobendodô, de Lucas Santtana (CD/1999), para ouvir o que os berimbaus de Ramiro fazem na faixa Doin' In The Death, (James Brown) bem de acordo com a parafernália eletrônica e percussiva que tem como responsáveis, além do próprio Lucas, os seguintes músicos:          
Cecília Spyer: Vocal
Chico Neves: Programação Eletrônica           
Gustavo di Dalva: Surdo/Atabaque/Ferros            
Kassin: Baixo Elétrico           
Léo Bit Bit: Surdo/Atabaque/Ferros           
Lucas Santtana: Água           
Márcio Victor: Surdo/Ferros
Ramiro Musotto: Berimbau

  Doin' In The Death (James Brown) - Lucas Santana
Eletrobendodô (CD/1999)

A faixa Inho, Inho também tem berimbau de Ramiro, explorando aparentemente outros sons da corda, além da sua segura programação de bateria:
Inho, Inho (Lucas Santtana/Quito Ribeiro) - Lucas SantanaEletrobendodô (CD/1999

Aqui, uma escuta da música instrumental de Fernando Samalea acrescida da participação de Ramiro Musotto, no álbum Padre Ritual (1999), segundo disco de Samalea.

Padre-Ritual (cd-livro) | Los Años Luz Discos, Argentina

Entre os diversos músicos neste álbum, destacamos a participação dos dois:
Fernando Samalea – bandoneón, glockenspiel, teclado, batería e percussão.
Ramiro Mussotto – berimbau e loop xavante.
Padre Ritual foi realizado em Buenos Aires, Río de Janeiro e Woodstock entre maio de 1998 e fevereiro de 1999.

Diez Veces La Salida del Sol  (Fernando Samalea), CD Padre Ritual, 1999.



Ramiro Musotto foi quem produziu este disco da cantora Adriana Maciel, no qual encontramos três músicas com berimbaus na instrumentação. Esta  faixa foi escolhida como mais um exemplo do berimbau harmônico: a responsabilidade do tecido harmônico da canção atribuída apenas aos berimbaus.

 Feitio de Oração (Noel Rosa) - Adriana Maciel, disco Poeira Leve (2004)


Embora Ramiro tenha feito a produção do primeiro CD da cantora carioca Mylene Pires, (_Mylene - O Que é que Há, 2003) no qual incluíu o berimbau em duas faixas, é no álbum de 2007 (Não Muito Distante) que encontramos mais um rico exemplo do berimbau harmônico, desta vez com orquestra de cordas e bandoneón, na canção Vem (Além de Toda Solidão), do grupo português Madredeus.

Vem Além de Toda Solidão - Mylene, CD Não Muito Distante, 2008

No próximo vídeo, alguns trechos do making of deste CD, editados para registrar a participação de Ramiro Musotto no estúdio, assim como as palavras da cantora sobre a participação musical do percussionista neste seu trabalho.
Making Of:
Video Original:
https://youtu.be/whjJ1SSL1e4

Para perceber aonde Ramiro conseguiu chegar com o projeto do berimbau harmônico, precisamos escutar a peça Ronda, uma parte da obra para Orquestra de Berimbaus que Ramiro compôs para ser executada na França, em 2006.

Tomando emprestadas palavras da crítica do maestro Arthur Nestrovski, Diretor Artístico da Osesp  e articulista da Folha de São Paulo sobre esse álbum de Ramiro:
"Civilizacao & Barbarye", seu segundo disco solo, abre com uma faixa de berimbau. Ou melhor, vários berimbaus, cada um afinado numa nota, de tal modo que a seqüência de toques produz arpejos (acordes "dedilhados").
Tudo nasce do intervalo mais típico do instrumento, uma segunda maior, correspondendo à corda solta ou tensionada do berimbau. Só que aqui são dois acordes: um acorde menor (com sétima e nona) e seu vizinho acima. Para além da estranheza timbrística desse megaberimbau, a montagem dos acordes cria um efeito ambíguo de tonalidade menor/maior. E então, sobre esses acordes, um outro berimbau "canta".
[http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq0903200715.htm]

BMO - Ronda  
(Via Continum)
Enviado em 12 de jan de 2010
Hommage à Ramiro Musotto à l'Ampérage de Grenoble
https://youtu.be/8CPFxaP7P04 




RAMIRO MUSOTTO: O BERIMBAU REINVENTADO
http://tempomusica.blogspot.com.br/2012/03/ramiro-musotto-o-berimbau-reinventado.html


RAMIRO MUSOTTO: A VOZ DO BERIMBAU
http://tempomusica.blogspot.com.br/2012/02/ramiro-musotto-voz-do-berimbau.html

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