5 de dezembro de 2010

JOSÉ EMMANOEL, UM TALENTO MUSICAL DA BAHIA


1943
Junho, 17.
Nasce José Emmanoel (José Manoel de Lima Athayde), na Praça José de Alencar, Pelourinho. Cantor, compositor, teve a oportunidade de conviver com o maestro Carlos Lacerda (do qual gravou algumas composições) e com o poeta e letrista Ildásio Tavares, parceiro de diversos compositores baianos.
Seu nome artístico foi idealizado pelo diretor geral da TV Itapoan, Paulo Nacife.
Trânsito geográfico
Um dos músicos baianos com maior trânsito geográfico, em sua trajetória pessoal. Filho de pais açoreanos da Ilha da Graciosa, com três meses de nascido José Emmanoel foi para o bairro de Itapoan. Aos 4 anos muda-se para os Açores - PG, de onde retorna aos 6 anos, de volta para Itapoan. Aos 10 anos, muda-se para o bairro da Caixa D'Água, em seguida para a Rua Direita de Santo Antonio. Alguns anos depois, está na mesma residência da Caixa D'Água. Em 1972, muda-se para os Estados Unidos, já casado e com um filho (Vince). Volta a Salvador em 1979, indo morar na Barra Avenida e finalmente, até 1999, na Avenida Centenário. Depois, muda-se mais uma vez para Lowell - Massachusetts, onde reside atualmente.
Dentre os filhos de J. Emmanoel, Vince Athayde (Vince de Mira) é musico e ativista cultural,  Vinicius Athayde (Vinicius Mangaio) atua como músico e engenheiro de áudio, e Mariana Athayde é socióloga. Sua mulher, Mira Athayde, (falecida em 2011) se tornou grande promotora de eventos em salvador nos anos 90.

Instrumento musical: voz. O violão, ele considera que "toca mal". Talvez porque, em dez anos de sua carreira artística havia sempre um grande instrumentista para acompanhá-lo, como Carlos Lacerda, Toninho Lacerda, Oscarzinho, Gecildo Caribé, no piano, ou no violão, Jota Rocha, Josmar Assis, Vevé Calazans, Toninho Nascimento, Mello, e muitos outros.
José Emmanoel:
"Comecei a cantar na TV Itapoan em 1962 e parei em 1972,  quando fui para os Estados Unidos, onde cantei para a colônia portuguesa por algum tempo. Tenho um diploma dado pela  imprensa baiana, me considerando o melhor cantor de TV por três anos consecutivos: 1966, 1967 e 1968." 

Compositor
José Emmanoel compunha, porém nao tinha coragem de mostrar suas músicas, nem de cantá-las. Mas pelo menos um músico baiano, Gino Frey [Higino de Freitas Mello], que era religioso, ("o chamávamos  de crente") e também sargento da policia militar, valorizava as composições de Emmanoel. Gino Frey cantava, tocava violao, fazia música no estilo Jovem Guarda e aparecia nos programas do gênero, na TV Itapoan. Por ser representante da Revista do Rádio, na Bahia, tinha contatos no sul, através da revista, que circulava em todo o Brasil. E, foi seguindo o conselho de Gino Frey, que J. Emmanoel inscreveu duas músicas de sua autoria no último Festival  Nordestino de Música Popular, sendo as duas classificadas, mas nao chegando a concorrer na etapa final.

Uma delas foi Menino de Itapoan:

Menino de Itapoan
Composição: José Emmanoel

Por mais que ande
Por mais que aprenda
Por mais que eu cresça
Nunca me solto
Nunca me esqueço
Do menino solto de Itapoan
Do menino solto de Itapoan
Solto no sol tão mar
Cedo no mar tão meu
Braçada e braço
Beiraba longe
Berei penei mas cheguei
Braçada e braço
Beiraba longe
Berei penei mas cheguei
Porto de cima
Uma menina
Porto de baixo
Uma pelada
Separava de mim eu mesmo
Que lutava pra ser eu só
E dona Santa
E dona Benta
E dona Moca
Vendendo abará
E dona Santa
E Dona Benta
E dona Moca
Vendendo abará
Santa Benta Moca Santa
Vendendo abará
Moca Benta Santa Moca
Vendendo abará...

[...] "concorria aí, com os maiores nomes da musica da Bahia, inclusive Ildásio Tavares. Acabei vencendo o festival como intérprete, cantando a música Traço de União, de Vevé Calazans, na grande final no Teatro do Parque em Recife, trazendo o prêmio para a Bahia. Vevé ganhou um fusca zero km como prêmio." [...] 

Estímulo e bronca de Raul Seixas
[...] "Outro grande incentivo que tive para continuar compondo coisas completamente diferentes daquilo que cantava na TV, como as músicas de Carlos Lacerda, veio de RAULZITO. Ele ja estava no Rio de Janeiro, trabalhando na CBS como produtor de Jerry Adriany. Eu fui encontrá-lo no seu apartamento no Leblon. Levava comigo uma fita, muito bem gravada, com músicas de Lacerda, acompanhadas por ele mesmo ao piano. Raul me atendeu com toda gentileza, sem bossalidade. Ouviu atentamente a fita, elogiou, disse que estava ótimo, que eu cantava muito bem, mas me deu um "esporro" por estar cantando músicas de Carlos Lacerda. Disse que aquilo "já era", que eu tinha que compor e cantar minhas composições, coisa diferente. Eu, meio assustado com o nível de letras que ele tinha me mostrado num caderno, arrisquei, e mostrei uma das minhas composições. Ele disse, vibrando, "- é isso, é isso aí, vá em frente e volte aqui".  Nunca mais o alcancei, nem o encontrei. Ele virou, rápidamente RAUL SEIXAS." [...]

Gravações

José Emmanuel/1968 - Compacto simples - JS Discos
Lado A: Estrela Azul (Carlos Lacerda) - Lado B: Maria (Carlos Lacerda)

Contracapa do compacto, assinada por Carlos Lacerda:
"entao de repente a gente fica grande
e começa desesperadamente
a escrever canções
depois
bem
depois vê que o tema é o mesmo
e o amor um só
inexorávelmente um reencontro apenas
tudo antes de você era mentira

e nada absolutamente nada mudou
não há mundo moderno e sim mundo eterno

o campo grande lá está
a estátua do caboclo tem a mesma altura
o piano do colégio maristas
é o mesmo que tocou primeiro
o mês de junho nao saiu do calendário
o pelourinho lá está
a casinha do fotógrafo inocente
que por bonita expôs sua foto
eu quebrei a vitrine e roubei
seu retrato ainda é o mesmo
eu guardei a pedrinha até hoje

o canela existe a casinha vermelha
desbotada pelos anos que vieram
número apagado com gradezinha na frente
o portão faz o mesmo som
só eu entendo a sua música
a farda dos Maristas já não cabe em mim
no mesmo cabide no mesmo armário
está pendurada como querer falar

se eu crescer caso com você
se ficar sempre menino fujo pra você

nao há explicação para coisa alguma
há meu bom amigo josé emmanuel
cantando história que é só uma

carlos lacerda"
(1968)

Estrela Azul - Lado A do compacto simples
Límpida interpretação vocal de José Emmanoel, acompanhado da Orquestra do maestro Carlos Lacerda, com seu irmão Toninho Lacerda ao órgão (na única performance em disco dos dois, tocando juntos).


Estrela Azul
Composição: Carlos Lacerda
Interpretação: José Emmanoel

A minha estrela azul
Desceu de um céu azul
Contou pra mim tantas histórias
Pra meu mundo só
Depois sumiu de mim
Me fez ficar tão só
Chegou por fim pra magoar
Mais o meu coração
Mas vou viver pra ter
A minha estrela azul
Que iluminou meu céu
E a vida me mostrou
Só vejo a hora em que
Meu céu irá trazer
Você vestida deste azul de paz

Estrela Azul, na época [...] "foi a mais tocada no rádio. Os músicos são da Orquestra de Carlos Lacerda, mas a orquestra não estava completa. [...] Quando gravei, o playback das duas faixas já estava pronto, não presenciei a gravação do mesmo.  O órgão, nao sei que tipo era, mas tem grande importância no arranjo de Carlos Lacerda. Quem tocou foi Toninho Lacerda, [seu irmão e também tecladista-arranjador] e esse é o único registro que existe deles dois tocando juntos. Lacerda, inclusive, ficou emocionado por saber disso."

Maria - Lado B do compacto simples 
Esta composição de Carlos Lacerda também faz parte do LP do I Festival de Samba na Bahia (JS Discos), na interpretação do Inema Trio (Lado A, Faixa 2). Embora seu balanço não seja essencialmente de samba, o rítmo tem um clima samba-bossa, com arranjo de orquestra de cordas, sopros e o indispensável piano de Lacerda. Aliás, o arranjo é o mesmo nas duas gravações.

Maria
Composição: Carlos Lacerda
Interpretação: José Emmanoel

Há uma coisa em seus olhos
Que eu não consigo entender
E eu precisava saber
Pra começar a viver

Maria
Seus olhos me dizem, Maria
De um amor que começa num dia
De um amor que não vai acabar

Maria
Que bom se a vida, Maria
Passasse a ser toda Maria
E eu não mais lhe visse sofrer

Você respirando este mar
Você começando a chegar
Você crendo mais em você
Pois o tempo não sabe esperar

Maria
Me fale da vida, Maria
Você que é a própria Maria
Você que eu vivi de esperar

[...] "Esse compacto foi gravado contra a vontade de Jorge Santos. Lacerda insistiu por muito tempo para que ele gravasse comigo. Por que isso?
Fui o vencedor da última série do programa de Nilton PaesEscada Para o Sucesso, em 1962, cantando Lua Branca, de Chiquinha Gonzaga (nem sabia da importância de Chiquinha Gonzaga, mas adorei a música e fiquei curioso por ver uma mulher compondo uma modinha). Quem me acompanhou ao violão foi Jota Rocha. No dia seguinte, quando apareci na Rua Chile, fiquei surpreso com a repercussão da minha vitória. Estava famoso em Salvador, todos me cumprimentavam e me apontavam na rua. Fui ao cinema Tamoio e na sala de espera estava o vice-governador Orlando Moscoso, com a família, e vieram me parabenizar pela vitória, me lembro que ele me perguntou se eu havia estudado canto, etc. Eu, nos meus 19 anos, estava assustado dentro da minha timidez. O prêmio pela vitória, um cheque e um contrato com a TV Tupi (falso, fiquei mesmo na Itapoan) foi entregue pelo prefeito Heitor Dias.

Dois ou três dias depois, recebo um telefonema de Jorge Santos, me convidando para cantar no J & J Comandam o Espetáculo. Era um programa vespertino da TV Itapoan, e eu já tinha visto Jorge Santos fazendo o programa de calouros Céu E Inferno,  onde ele aparecia humilhando os calouros. Havia um anão vestido de diabo, que espetava o calouro com uma lança, quando nao gostavam da sua perfomance, era terrível. Era essa a imagem que eu tinha dele.  Pela importância da minha vitória eu sabia que merecia reaparecer num programa no horário nobre. No diálogo com JS, senti que ele estava se adiantando para apresentar o vencedor do Escada para o Sucesso. Fiquei com receio e perguntei se iria ganhar cachê, ele me disse, sêcamente, que não. Eu, delicadamente, dei uma desculpa, e me neguei a cantar no programa dele. Ele nunca me perdoou por isso, e me boicotou o que pôde para que eu não gravasse na JS. Mas mesmo assim gravei muita coisa, sob a exigência dos patrocinadores e a influência de Lacerda. Esse compacto simples foi gravado assim, com a influência do maestro e amigo. 

Esse problema me levou a ir gravar em São Paulo, antes do compacto da JS, um compacto simples na ASTOR, o que talvez seja o primeiro disco independente da Bahia, pois paguei para gravar, levado pelo meu amigo "crente", Gino Frey.  Mas foi um desastre, deu tudo errado,  o disco teve arranjos bizarros e ficou muito mal produzido." [...]

José Emmanuel (Com NEFÊ e sua Orquestra) - Compacto simples Astor/SP
Lado A: Prelúdio do Amor Perdido (Carlos Lacerda) - Balada
Lado B: Meu Bem (José Emmanuel) - Samba-Canção

Texto da contracapa, assinado por Gino Frey:
José Emmanuel - A voz da nova geração

Desde que foi classificado no primeiro lugar do grande concurso "Escada para o Sucesso" da TV Itapoan na Bahia, José Emmanuel não mais parou de figurar na lista do sucesso. Em 1963, fez o auditório da TV Record de São Paulo vibrar, representando magníficamente o seu Estado no concurso "Voz de Ouro ABC", entre os finalistas. José Emmanuel parte agora para o sucesso no disco, porque tornou-se grande de mais para caber apenas na televisão. Os repetidos êxitos nos "Festivais da Juventude" e o assédio das fans, que não mais lhe deixam transitar livremente nas ruas, ainda mais após o seu novo programa do Canal-5 "Sucessos Musicais", exigiram a presença deste disco. José Emmanuel é jovem e a juventude é quem manda. E todo o seu vigor juvenil, seu enorme talento e a inspiração que lhe dá o seu amor desconhecido, estão nas músicas que compõe, nos versos que escreve e na boa música que faz. Recebamos de braços abertos este jovem de futuro promissor que estréia tão auspiciosamente no mundo fonográfico.
GINO FREY"



Festivais de Música
Em 1969, José Emmanoel participa do I Festival Nordestino da Música Popular, promovido pelo grupo dos Diários Associados no Nordeste, cujas eliminatórias foram realizadas em Fortaleza, Salvador e Recife.
No LP gravado com as 12 finalistas, consta a interpretação de Carlos Gazineo e José Emmanoel, sob a direção musical do maestro José Menezes:

I Festival Nordestino da Música Popular - Rozenblit/1969

Lado A
Faixa 3: Moinho de Vento (Mário César Nascimento Brito)
Voz: Carlos Gazineo e José Emmanuel (3º lugar – Bahia)



José Emmanoel e Ilma Gusmão -1971
Vencedores do 3º Festival Nordestino de Música Popular, em Recife

Fases Conclusivas
[...] "estava, sem eu ter consciência, comecando uma fase de transição nos programas de TV. Em tudo que eu me metia era sempre a última fase: Escada para o Sucesso foi a última série, o ultimo programa, depois de revelar todo o cast que trabalhou na TV Itapoan, entre eles, Cylene & Cynara (Quarteto em Cy), Fernando Lona, Carlos Gazineo, Tom Zé, Maria Creuza, e muitos outros.

Em 1963,  fui disputar o concurso Voz de Ouro ABC,  na Rádio Excélsior da Bahia, onde conheci Edmundo Viana, o produtor ou diretor do programa.  Havia mais de quatrocentos candidatos. Cantei Pierrot, de Joubert de Carvalho, acompanhado por uma orquestra de sopros. Ganhei o primeiro lugar e fui para São Paulo, representando a Bahia - a grande final no Teatro Record, transmitido pela TV Tupi e pelo rádio para todo o Brasil. Cantei, acompanhado pela grande orquestra do teatro, a música Caminhemos, de Herivelto Martins, mas o prêmio foi para o Rio de Janeiro, pois havia uma "panelinha do sul" formada. Também foi a última série do Voz de Ouro ABC.

Depois, foi o Festival Nordestino de Música Popular, em Recife , o qual vencí com a música de Vevé Calazans (Traço de União), também o último. Logo depois aconteceu o encerramento da programação 'ao vivo' da TV Itapoan." [...]
 

Propostas e logros das gravadoras
[...] "Em 1969 ou 1970, fui convidado para gravar na Chantecler, para ser lançado nacionalmente. Enquanto esperava o representante da gravadora retornar a Salvador com a confirmação, Zanoni, o representante da CBS na Bahia, aparece, me convidando para gravar, com um pedido do diretor geral da gravadora, mas não me explicava qual era realmente o projeto, e exigia que eu viajasse no dia seguinte para o Rio de Janeiro. Fiquei com receio, pois teria que largar tudo imediatamente na Bahia (era sócio de uma das lojas de calçados de meu pai e estudava Contabilidade à noite). Pedi a ele uma semana, não fui atendido. O representante da Chantecler, quando voltou, tinha brigado com a diretoria, e, muito sentido, me prometeu outra oportunidade, que não aconteceu. Ildásio Tavares, referindo-se a esse lance, dizia sempre que eu não dera continuidade à minha carreira por ser medroso. Muito tempo depois, encontrei com o Zanoni, e lembrando o episódio, ele disse; " - não lamente não ter ido, você poderia já estar morto." Foi o medo minha sorte? Coincidentemente, acharam uma fita esta semana, na qual eu havia gravado há mais de trinta anos, uma música minha , que eu não me lembrava mais, que fala desse medo:

..."Foi o medo minha sorte
O meu brinquedo de esconder
Pega pega que já pode
Todo mundo já cresceu
Pega pega que já pode
Todo mundo menos eu"...
Outras Memórias e Aventuras

[...] " - Bicha! Bicha! Bicha! Bicha! Era a reação estranha e preconceituosa dos estudantes universitários (????) que lotavam a Reitoria da UFBA em 1973, quando Cid Seixas recitava Carlos Drummond de Andrade nos intervalos das músicas cantadas por mim e uma cantora chamada Magna.

Foi o meu último show. Tive que adiar a viagem já marcada para os Estados Unidos, para participar desse show. Era, para mim, a despedida da vida artística baiana. A pedido de Cid Seixas, produtor do show, que irônicamente celebrava o Dia do Estudante e homenageava Assis Valente e Humberto Porto. Cid foi vaiado várias vezes, por ser do cast da TV Itapoan, e ser um rapaz de boa aparência ("um pão", como as meninas chamavam na época). Havia uma certa rivalidade entre os artistas da TV, os do Vila Velha e os do rock (Jovem Guarda) do Cine Roma. (Waldir Serrão me convidava sempre, e para ele, eu cantava de graça. Era um batalhador. Os Panteras eram gente boa, Carleba, Thildo Gama e Raul. Eu, de certa forma, circulei entre os três).

Cantávamos músicas de Assis Valente e Humberto Porto, acompanhados por Perna Fróes no piano, Tuzé de Abreu na flauta, Moacir Albuquerque no baixo e Tutti Moreno na bateria. Eu abria o show cantando Camisa Listrada, de Assis Valente e a seguir Cid declamava, enquanto os estudantes me aplaudiam e vaiavam Cid, consecutivamente. Foi um sucesso e um grande sofrimento, um desapontamento, ver uma pessoa como Cid ser massacrado daquele jeito mal educado, pelos universitários. Cid era um profissional, educado e culto (fizemos duas músicas juntos, Senhora e Menina Morena). Foi parceiro de Lacerda também, entre outros.

Mas isso era muito comum, nos chamar de 'bicha', porque éramos artistas. Um irmão de minha mulher, quando ainda namorávamos, um dia perguntou a ela; " - está namorando com viado?" Na realidade estávamos mudando o mundo, e ele não sabia.

O Tarrafa: Simonal, Lacerda e Edil Pacheco (1971)
[...] "O restaurante Tarrafa, na Joana Angélica, era o nosso ponto de encontro. Antes, era o Mucambo, na rua Carlos Gomes. Esse bar havia falido, ficávamos até altas horas sem consumir. O mesmo dono abriu o Tarrafa e prometemos ajudá-lo, fazendo shows de graça. Quando a casa lotava de turistas, improvisávamos um show, Lacerda tocava e acompanhava-me ao piano e Benvindo Sequeira declamava Carlos Drummond de Andrade, tudo acústico, sem microfone (a casa tinha uma boa acústica).
Em uma dessas noites, estavam na platéia Vinicius de Moraes e Gessy Gessy. Faziam parte da turma: João Augusto, Benvindo Sequeira, Edil Pacheco, Toninho Sena, Ildásio Tavares, Guido Guerra, Napoli, Ivan Jacaré,(Ivan Reis), Roberto Cock e outros...
Eu e Toninho (Trio Inema e Tom & Dito) tínhamos chegado mais cedo, esperávamos Carlos Lacerda, quando para nossa surpresa, aparece no Tarrafa Wilson Simonal (no auge do sucesso) acompanhado por dois seguranças, dirigiu-se a mim, dizendo que havia sido informado que ali se reuniam os músicos de Salvador, que estava procurando por um samba para complementar o seu novo LP. Eu, prontamente o apresentei a Toninho, que estava com o violão na mão. Simonal sentou-se e ouviu atentamente mais de vinte sambas, elogiava, mas sempre dizia - desculpe, mas ainda não é isso que estou procurando...
Lacerda apareceu, vestido como sempre, todo de branco, e ao ver Simonal, o saudou com um grande "CHE" como se o já conhecesse. Sentou-se ao piano, depois de conversar um pouco, mostrou para Simonal um samba novo que tinha feito com Edil Pacheco, intitulado "Tristeza". Ao terminar, Simonal pulou da cadeira vibrando, - É Esse! É esse! Poucas semanas depois, o samba era sucesso nacional, e o primeiro de Edil Pacheco. Simonal me agradeceu por não ter deixado ele ir embora. Nessa mesma noite, Lacerda mostrava a todos empolgadamente a marca do seu novo relógio. Quando conferíamos o pequeno nome no mostrador, se lia "Coqueijo". Era mais uma de suas brincadeiras com o seu amigo, - ministro do trabalho, juiz de Direito e músico, fanático e amigo de João Gilberto, - Carlos Coqueijo Costa, que se irritava com essas brincadeiras e o perdoava, chamando-o de "psicopata". [...] 

Wilson Simonal - LP Jóia, Jóia/1971

 Tristeza
Composição: Carlos Lacerda / Edil Pacheco
Interpretação: Wilson Simonal


Tristeza não insista em querer ficar
Meu pranto há muito tempo enxuguei
A alegria é minha namorada
O riso simboliza o meu mundo
Não quero nem saber de solidão
Tristeza deixa em paz meu coração

Já me acostumei ao mundo que criei pra mim
Não aceito mais ficar alegre sem sofrer
Sinto o mundo inteiro invadir meu coração
Se você pensa que vou lhe aceitar, juro que não.

"No Festival do Samba, (o último) Batatinha me pediu para defender uma música sua intitulada Hora da Razão. Foi uma honra para mim, a música era muito boa. Eu já tinha gravado na JS uma música dele para o carnaval (não  lembro o ano, nem a música). Classifiquei Hora da Razão para a finalíssima, fui, então, o primeiro a cantar essa música. Logo depois viajei para os Estados Unidos e acho que Batatinha, ele mesmo, cantou na final, e ganhou o primeiro lugar. Anos mais tarde Caetano gravou e foi um sucesso. Batatinha tinha muitos filhos, aparecia sempre na minha loja na Baixa dos Sapateiros, conversávamos sobre música, e comprava calçados para toda a família. Pagava como podia, suavemente, mas pagava, fazia questão. Batatinha era um ser humano iluminado.

Gravei Cadeira na Avenida (samba) na JS, da dupla campeã de vários carnavais: Jairo Simões e Renato Mendonça. Eles se despediam do carnaval da Bahia, esta foi sua última música gravada. Tocou bastante nas rádios, mas os Trios, o Jacu, Os Internacionais e Os Corujas já começavam a mudar o carnaval da Bahia." [...]






Cadeira na Avenida

Composição: Jairo Simões / Renato Mendonça
Interpretação: José Emmanoel 

Eu vou botar uma cadeira na avenida
Pra ver a escola passar
Ai ai ai ai, saudade me faz chorar

 
Um dia fui presença reclamada
No samba que o asfalto sabe dar
Mas hoje meu lugar é na calçada
Batendo palmas
Fico a chorar

Jairo Simões também era parceiro de Carlos Lacerda.
Gravei o Hino das Misses (JS) para o concurso Miss Bahia. Por vários anos, cantei nos concursos de misses no Ginásio Antônio Balbino. Lembro que certa vez Edmundo Viana me levou para Itabuna, onde eu iria fazer um show em homenagem à Miss Itabuna, com o menino prodígio Armandinho. Viajei num pequeno avião, eu e o piloto apenas, mas na aterrissagem num campo de areia, descobrí, que tinha como companhia um defunto ao meu lado, dentro de um caixão. O caixão abriu, com os tombos.

Lacerda, seu carisma e sua generosidade
"Eu, Carlos Lacerda, Ilma Gusmão e o médico Raimundo Egídio, com quem Ilma havia casado, fomos várias vezes participar de programas especias da TV Jornal do Comércio em Recife. Numa dessas vezes, Lacerda estava numa fase confusa, começou a beber uísque, lembro muito bem que depois de quinze minutos dentro do avião, Lacerda já conversava com quase todos os passageiros, falando, nervosamente, batendo com o polegar no lado da armação dos seus óculos de grau, falava sobre o seu medo de voar.  Nessa viagem notei que, de tempo em tempo, ele tirava do bolso do paletó, tentando esconder de mim, uma garrafinha, e virava, de gole em gole. Era uísque, e ele estava ficando bêbado. 

O avião estava atrasado, e iríamos chegar em cima da hora do programa, eu ia cantar três músicas dele, totalmente desconhecidas para os músicos de Recife.  Não teríamos tempo de ensaiar. Ele conversou comigo sobre isso, enquanto, tentando me tranquilizar, dizia, "não vai ter problema, não se preocupe com a orquestra, siga o meu piano, e tudo vai dar certo."   Eu disse:  "tudo dará certo se você parar de beber."  E tomei, na marra, a garrafa da mão dele. Pensei por um momento pelo susto tomado, que ele iria reagir, mas, não.  Depois de um tempo calado, me disse: "obrigado, Zé, estou envergonhado, eu mais velho que você, e você agindo como se fosse um irmão mais velho que eu gostaria de ter, me protegendo."

Entramos no estúdio da TV, uma enorme orquestra, a Sinfônica de Recife. Lacerda rápidamente distribuiu as partituras, dando instruções para os músicos, e entramos no ar. Eu respirava fundo, nervoso, atrás da cortina, tentando me controlar, o que sempre conseguia.

Ninguém pode imaginar a grandeza e profundidade da emoção que um artista sente num momento desses. Ouvindo os violinos, em sons desconhecidos, fluirem mágicamente, sustentando a minha voz que, ao mesmo tempo soltava o agudo, eu controlava automáticamente a emoção, para não explodir, e poder chegar ao final da canção. No final, a consagração e a explosão. Os músicos, encantados com o maestro baiano e os seus artistas, aplaudiram, dedilhando por longo tempo os seus violinos , como fazem tradicionalmente, em ocasiões especiais.  Eu corri para os bastidores, e chorei no primeiro  abraço recebido emocionadamente de Raimundo Egídio, o médico, amigo e músico também, marido de Ilma, a Giboeira de Lacerda. Numa atitude estranha, no dia seguinte, ao sair do hotel, Lacerda entregou todo o dinheiro recebido como pagamento, para um negro velho e humilde, que trabalhava na limpeza do hotel."  [...]

[...] "Na Ladeira do Paiva, eu namorava, e logo depois, me reunia com a turma na esquina para cantar músicas do repertório de artistas com quem, mais tarde, eu iria ter a honra de participar dos programas da TV Itapoan, como Sílvio Caldas, Agostinho dos Santos, Vicente Celestino, Jair Rodrigues, Clara Nunes, Elis Regina, Lana Bittencourt, Gregório de Barros, entre outros. Numa dessas noites, aproximou-se dos jovens seresteiros um rapaz chamado Beto, que frequentava a mesma rua, (ele namorava, então, aquela que seria sua primeira esposa) pediu o violão e tocou uma composição sua, intitulada Samba Louco. Pela primeira vez eu via de perto alguém tocar e cantar bossa-nova. O rapaz era Gilberto Gil, que já andava pela JS, e eu ainda não tinha chegado ao Escada para o Sucesso. Pouco tempo depois, andávamos pelos corredores da TV Itapoan.

Carlos Lacerda me convidava para cantar na sua orquestra, quando tinha festas especiais. O crooner oficial era o cantor Aloisio Silva e a cantora, Shirley Saldanha. Lacerda tinha grande admiração por Aloisio Silva, gostava muito dele, assim como o Gilberto Gil, um grande artista e intrumentista. Lembro que fomos juntos, eu, Carlos Gazineo e Gilberto Gil, ver Aloisio cantar no "69", na Gameleira, no "mangue", como se chamava a zona de prostituição na época. Santo de casa nao fazia milagre na Bahia, isso só foi mesmo mudar com o santo forte de Luiz Caldas, nos anos oitenta.

Muitos foram os ensinamentos que recebí do maestro Carlos Lacerda. Aprendi até sobre o próprio medo. Embora atormentado com seus medos, eu aprendia observando a agonia do gênio, escutando ou participando de longos papos com seu primo Luis Caribé, ou com Guido Guerra, Ildásio Tavares, Jairo Simões, João Augusto, e, uma vez, até com Caetano Veloso. Entre os seus medos, o maior era o da solidão. Medo de andar só, ficar só. Às vezes até ficava, conscientemente, em companhias duvidosas, pelo medo de estar só, ou de andar só. E ele dizia, sempre, que jamais teria coragem de fazer o que eu estava fazendo, ir viver em outro país. Uma vez Carlos Lacerda foi convidado por Henry Mancini para ir trabalhar com ele na América, mas ele disse que não iria, por ter medo de voar. E eu, observando a facilidade que ele tinha em se comunicar com as pessoas, curei parte da minha timidez. Aprendí com ele, que sempre é possivel perdoar. Aprendi a abraçar as pessoas (ele cumprimentava, abraçando, a todos).
 

Depois dos ensinamentos recebidos do maestro Carlos Lacerda, eu fui também aprender com o seu irmão mais moço, o Toninho Lacerda. Já no final da programação ao vivo na TV Itapoan, ele me convidou para cantar no seu conjunto. Toninho nao tinha tido a formação erudita de seu irmão, mas tinha um ouvido privilegiado, e muito suingue, além do incentivo que recebia da mulher, uma carioca, inteligente, por quem ele era loucamente apaixonado: Ayeska Paulafreitas.

Começamos na Casa da Praia, uma casa que fez época, na noite, em Amaralina. Depois o levei para me acompanhar num show meu na boite da Associação Atlética da Bahia. Eu pensei em fazer o show somente com ele no teclado, mas Toninho, olhando para o futuro, inteligentemente, levou todo o conjunto. Aí, o show foi um arraso, "uma pedrada", como dizem os jovens músicos de agora. No final do show, o diretor da Associação contratou o conjunto, na condição de me ter sempre como cantor. Toninho Lacerda tocou na Associação por muitos anos. A boite tornou-se um grande sucesso na noite de Salvador, frequentada pela elite. Lotava todas as sextas e sábados. O maior sucesso era quando eu cantava Bamboxê, (Ossain) uma música de Ildásio Tavares e Antonio Carlos e Jocafi.

(Tenho uma gravação de Bamboxê (Ossain) numa moderna versão da RADIOMUNDI, com Vince & Mangaio + Junix na guitarra)

Foi uma pena para a história da música da Bahia, Toninho não ter deixado nenhum registro desse seu conjunto. Era o início do uso da percussão junto à sofisticação do seu teclado. Era um 'afrobeat' dos anos sessenta. Tinha no seu conjunto a mesma ideia que Vince de Mira, meu filho, teve na formação do O CUMBUCA, em 1999. Destaque para percussão, dois percussionistas, que na época, chamávamos ainda, "batuqueiros". Pela primeira vez, levamos o batuque de rua para a sofisticacao de uma boite, na Bahia." [...]
LE BRIGDGE - restaurante  do Clube de Bridge na Graca, anos 90.
José Emmanoel, Vinicius Mangaio, Vince, Gil Vicente e Ildásio Tavares
Foto tirada no aniversário do cantor, quando Vince e Gil tocaram juntos.
"Vince Athayde e Vinicius Mangaio, assim como os filhos de outros músicos da minha geração, é que estão modificando a música na Bahia, e o princípio dessa mudanca eu tenho guardado com muito carinho, o primeiro CD de Vince na banda O Cumbuca (1999), que ele abre com uma música minha, e o último disco (boicotado) dos Lampirônicos, que traz de volta a guitarra baiana" [...]
Consultar:
[Blog Música&Poesia - Disco completo da banda O Cumbuca:
http://musicapoesiabrasileira.blogspot.com/2007/06/disco-completo-da-banda-o-cumbuca.html]



Projeto, não concretizado, de um LP de José Emmanoel, só com composições de Carlos Lacerda:
 
 José Emmanoel Canta Lacerda - 1967 - Studio JS

[...] "No final dos anos sessenta [Carlos Lacerda] declarou numa entrevista que os cinco melhores cantores do Brasil eram: João Gilberto, Gilberto Gil , Orlando Silva, Taiguara e José Emmanoel.
Preferi acreditar que ele estava sendo generoso comigo. Foi um erro?

Aquí está o que ele escreveu na contracapa do meu disco onde cantava duas músicas suas, Maria e Estrela Azul (1968):


"...nao há explicação para coisa alguma
há meu bom amigo José Emmanuel
cantando história que é só uma

carlos lacerda"


 

Giboeirinha, composição do Maestro Carlos Lacerda 
Programa: Sala de Concertos TVE 1989 
Cantor: Jose Emmanoel 
Violao: Mello Calmon 

 
Agradecimentos:
A Ayeska Paulafreitas Lacerda, grande incentivadora, por facilitar os contatos e o acesso a informações relevantes.
A Gilka Bandeira, pelo mesmo motivo.
A José Emmanoel, um talento musical da Bahia, pela sua disposição e solicitude em prestar os depoimentos e ceder os arquivos de imagem e áudio.
Fontes:
Depoimentos de José Emmanoel ao autor, em Dezembro de 2010.
http://www.myspace.com/joseemmanoel
http://www.myspace.com/556262263
http://musicadoceara.blogspot.com/2009/09/i-festival-nordestino-da-musica-popular.html

2 de dezembro de 2010

OS ORIXÁS - ILDÁSIO TAVARES E BERIMBAU

 Berimbau e Ildásio Tavares - LP SOM LIVRE: 403 6153 - 1978
 Capa: Carybé (veja imagem em maior resolução no final deste post)

Luis Berimbau e Ildásio Tavares
Fruto de longos anos de pesquisas e elaboração da dupla Luis Berimbau (músico, contrabaixista, compositor) e Ildásio Tavares (poeta, compositor, tradutor, alabê), o disco Os Orixás é um trabalho de criação poético-musical inspirado nas entidades do panteão afro-brasileiro, nas suas características psicológicas, nos seus rítmos e toques percussivos, danças e melopéias.
Com uma belíssima capa desenhada pelo artista plástico e também homem do convívio com a religião afro-brasileira, o disco traz uma proposta cheia de originalidade e merece ser estudado por quem se interessa pela música brasileira, pois alí já despontavam caminhos de fusões rítmicas tornadas usuais alguns anos mais tarde. Predominante, a batida de ijexá é usada em cinco, das dozes canções. Mas uma roupagem diferente é conferida a cada uma delas. Da contracapa do álbum, consta ainda um glossário dos vocábulos do Yorubá, das expressões que só talvez os baianos saberiam compreender, universalizando, assim, a obra. O glossário foi elaborado por uma das personalidades mais eminentes e íntimas do candomblé, o escultor e artista plástico Mestre Didi. A cantora Eloah, que não possui muitos registros da sua atuação musical, foi a escolha perfeita para a interpretação vocal, conferindo um tom emotivo, destituído de artimanhas técnicas, completamente dispensáveis, neste tipo de trabalho.

E nada melhor para descrever essa rica proposta, do que a leitura do texto da contracapa, assinado pelo escritor baiano Jorge Amado:

"O POETA, O COMPOSITOR E OS ORIXÁS

Muito bom, me diz João Jorge, meu filho, vidrado num som moderno e entendido no assunto. Para mim, a música de Berimbau está além da contigência pois eu a sinto ritual e antiga, nascida na roda de santo. Também o poema de Ildásio Tavares tem suas raízes numa língua brasileira mestiça onde vocábulos ibéricos e vocábulos africanos se misturam e renascem em terras da Bahia. Fundem-se música e poema numa única verdade popular: a homenagem aos orixás que protegem a cidade e a gente que aqui vive, labuta, sofre, confia e canta. João Jorge me explica detalhes da criação musical e poética, justos e coerentes. Para mim, no entanto, ignorante da complexidade do som novo e de ouvido duro, sobra na memória antes de tudo essa fidelidade essencial à Bahia. O compositor e o poeta cantam no terreiro onde os orixás dançam com seus filhos e suas filhas.

De Berimbau só sei da música e não é pouco pois a música do jovem compositor aí está para quem queira ouví-la e destina-se, creio eu, a sucesso merecido e amplo. De Ildásio, sei muito pois há tempos acompanho seu caminhar e sua disposição em prosa e verso, sobretudo em verso. Esse moço intelectual tem trilhado muitos e diversos caminhos. Marcha porém sempre em frente, buscando o encontro constante da criação literária com as fontes populares, marcadas quase sempre pelo quotidiano dramático, numa conotação social que se afirma mesmo quando o poema é litúrgico. Os Orixás de Ildásio são orixás lutadores, ao lado do povo.

Ildásio Tavares é figura importante no Axé do Opô Afonjá, com alto posto na casa de Oxum, no terreiro de Xangô. Assim, os temas que Berimbau tratou, transformando-os em nova criação musical, são familiares ao poeta que os conhece na intimidade. Daí o acerto do encontro do compositor e do poeta na louvação dos encantados, doze deles, os mais famosos. Reunidos, Berimbau e Ildásio fizeram-se voz da gente mais despojada da Bahia na sua afirmação inicial. Ainda bem.

Voz também do povo em seu canto largo, é Eloah a quem os criadores entregaram a tarefa de interpretar a louvação. Ela lhe deu o calor de seu sentimento. O maestro Hélcio Alvares emprestou o valor do conhecimento musical nos arranjos admiráveis. Completando a alta qualidade desse LP.
Jorge Amado."


FAIXAS:
LADO A:

1. Exú - Berimbau/Ildásio Tavares
2. Ogun
- Berimbau/Ildásio Tavares  
3. Omulú
- Berimbau/Ildásio Tavares 
4. Oxossi - Berimbau/Ildásio Tavares 
5. Logun Edé - Berimbau/Ildásio Tavares
6. Nanan
- Berimbau/Ildásio Tavares
LADO B:
1. Oxun - Berimbau/Ildásio Tavares 
2. Yansan - Berimbau/Ildásio Tavares
3. Yemanjá - Berimbau
4. Xangô
- Berimbau/Ildásio Tavares
5. Oxalá
- Berimbau/Ildásio Tavares
6. Axé Opô Afonjá
- Berimbau/Ildásio Tavares
    Alujá - Berimbau/Ildásio Tavares





A - 05 Logun Edé (Ijexá)

Ê ê ê ê ê
Fara Logun Fara Logun Fa

No fundo da mata escondeu seu tesouro
Tesouro tirado do fundo do mar
De conchas e búzios e peixes de ouro
Tesouro de Oxun para Oxossi guardar

Brincou pelo mato menino guerreiro
Na caça e na pesca, reinando Logun
Cansou foi pro mar, mergulhou bem ligeiro
Tirando de Oxossi o tesouro de Oxun

Ê ê ê ê ê
Fara Logun Fara Logun Fa

Do Glossário de Mestre Didi Axipá, assogbá do Axé Opô Afonjá:
Ê - saudação
Fara - perto de
Logun - nome do orixá Logunedé

 
 
B - 03 Yemanjá (Ijexá funkeado)

Se eu vivesse do jeito que eu queria
E se fosse dia 2 de fevereiro na Bahia
Eu fazia um barco todo de ouro
Mandava um tesouro pro mar

De Yemanjá, Yemanjá
Mãe sereia
Feita de água e areia
Cabelo cor de horizonte
Estrela d'alva na fronte

De Yemanjá, Yemanjá
Mãe sereia

Farol da Barra alumiou o mundo
Foi ela quem mandou que o mar fosse baiano
De Piatã ao continente africano
De Yemanjá, Yemanjá
Mãe sereia

Odô Yá Ê Ê
Odô Yá Ê Ê Ê

Do Glossário de Mestre Didi Axipá, assogbá do Axé Opô Afonjá:
Ê - saudação
Iyá - mãe
Odô, odô yá - saudação a Yemanjá


Os Orixás - Capa de Carybé
(clique para ampliar)

[O álbum Os Orixás pode ser escutado na íntegra no LPS BRAZIL, um blog que difunde a boa música brasileira registrada em vinil]
 Os Orixás, no LPS BRAZIL

Fontes:
http://lpsbrazil.blogspot.com/2010/06/os-orixas_18.html
http://acervoayom.blogspot.com/2006/10/os-orixs.html
http://acervotambor.blogspot.com/2008/03/os-orixas-1978.html