26 de outubro de 2010

CARLOS LACERDA, UM MÚSICO DA BAHIA

 Carlos Lacerda, músico baiano.
Foto: acervo da família.
Carlos Alberto Freitas de Lacerda (Salvador, 26/10/1934 - 12/11/1979)
Pianista, maestro, compositor e arranjador, iniciou seus estudos de piano aos seis anos de idade. Mais tarde, viria a estudar nos Seminários Livres de Música, inclusive cursando regência e orquestração com H. J. Koellreutter.

Formação musical
Piano: Pierre Klose
Regência e Orquestração: Hans-Joachim Koellreutter
Harmonia e Contraponto: Yulo Almirante Brandão

Trajetória artística



Carlos Lacerda foi músico da fase áurea da cena radiofônica, tocando na Rádio Sociedade da Bahia.
Acompanhou os primeiros anos da Gravadora JS (que perdurou de 1960 a 1982), vindo a ser diretor musical da mesma. Permanecia durante todas as tardes nos estúdios da JS, em permanente contato com os artistas que circulavam entre a recém criada  TV Itapoan (primeira emissora de TV da Bahia, da qual Lacerda foi também diretor musical) e a gravadora de Jorge Santos.

O pianista Carlos Lacerda, na TV Itapoan

Alguns desses músicos, já que a lista seria imensa: Toninho Lacerda (irmão de Carlos Lacerda e também pianista e arranjador), Gilberto Gil, Osvaldo Fahel, Carlos Gazineo, Claudete Macedo, Fernando Lona, Alberto Aquino - o maestro Chachá, Gecildo Caribé, Cacau do Pandeiro, Vivaldo Conceição, Batatinha, Riachão, Panela, Tião Motorista, Inema Trio (Douglas, Toninho e Expedito), Antonio Carlos e Jocafi.
Em sua casa, no Rio Vermelho, costumava se reunir na sexta-feira, madrugada a dentro, a nata dos músicos baianos e da boemia da época, entre os quais estavam sempre Alcyvando Luz, Carlos Coqueijo, Ildásio Tavares, Luis Berimbau, José Emmanoel e tantos outros.

Como diretor musical da TV Itapoan, Lacerda teve a oportunidade de acompanhar ao piano, ou com seu trio, (Lacerda, Moacyr Albuquerque e Tutti Moreno) os cantores que vinham do sul e se apresentavam na programação da emissora, a exemplo de Jair Rodrigues, Elis Regina, Clara Nunes, Lana Bittencourt, Silvio Caldas.

Como compositor, fez parcerias com Luiz Vieira, Moacyr Franco, Edil Pacheco, Jocafi, Caymmi e Jorge Amado.

1959: (ano em que compôs Giboeirinha) Carlos Lacerda funda sua própria orquestra com 30 integrantes.

A foto a seguir foi coletada no perfil MySpace do cantor e compositor José Emmanoel, que gravou diversas canções do maestro Carlos Lacerda (Estúdios JS/1967-1968). No nosso post sobre esse artista, há diversos depoimentos inéditos sobre a sua convivência musical com o maestro, além de áudio e letras  de algumas composições de Lacerda


Orquestra do maestro Carlos Lacerda (anos 1960) 
[http://www.myspace.com/joseemmanoel/photos/23504429#a=0&i=7271148]

Uma das formações da orquestra de Carlos Lacerda
Foto: acervo da família.




Carlos Lacerda formava, com o baixista Moacyr Albuquerque e o baterista Tutti Moreno, um trio instrumental que tocava nos programas de televisão da época.
Carlos Lacerda na contracapa do seu primeiro LP, de 1961

Discografia
Primeiro LP: Carlos Lacerda, o Governador do Teclado/1961.
Segundo LP: Um Piano da Bahia/1963 - Texto de Luiz Vieira na contracapa.

Terceiro LP: Piano de Informal e Bossa/Sem data, gravado na JS (Capa desenhada por Carybé, contracapa assinada por Jorge Amado). 

Compactos simples:
Moisés Mandel e Carlos Lacerda - CSJ 102
Vamos ao Cinema - Moto-Cine Piatã - CJS 103

Outros Long-Plays:
I Festival do Samba na Bahia (Vários artistas)


CD:
Resgate da Memória Musical da Primeira Gravadora da Bahia. Salvador, 2002.


1 - Carlos Lacerda, O Governador do Teclado - Interpreta Djalma Ferreira - 1961






 Carroussell SELP-3007


Texto da contracapa:
"...Os navegantes vieram de longe!
Atravessaram os mares nunca dantes navegados!...
E descobriram a terra maravilhosa! Ali desceram
e plantaram a primitiva cruz! Terra de Santa cruz!
Era o Brasil que nascia... E o seu berço foi a BAHIA!...
A Bahia cresceu... E sob a égide divina do Senhor do Bonfim,
seus filhos espalharam sabedoria por todo o Brasil.
A influência dos baianos, no desenvolvimento cultural e artístico do Brasil, além de tradicional é uma realidade inegável.
A COMPANHIA INDUSTRIAL DE DISCOS sente-se orgulhosa em apresentar o exímio e brilhante pianista baiano:
CARLOS ALBERTO FREITAS DE LACERDA, o governador do teclado.
CARLOS LACERDA nasceu para a música, é na acepção pura e singular da palavra: um artista. Iniciou seus estudos de música clássica aos 6 anos de idade, tornando-se desde então, um apaixonado pelo mundo maravilhoso da música.
Estudou nos tradicionais "SEMINÁRIOS INTERNACIONAIS DE MÚSICA" da Bahia, com os famosos professores: H. J. KOELLREUTTER (Regência e Orquestrações), PIERRE KLOSE (Piano) e YULLO ALMIRANTE BRANDÃO (Harmonia e Contraponto).
Terminado o curso, CARLOS LACERDA deu vários recitais de música clássica em Salvador.
Mas, um dia, conheceu BENÉ NUNES, que se tornaria um grande amigo e o incentivador de sua carreira artística. Acatando os conselhos e a orientação de BENÉ NUNES, abandonou a música erudita para se dedicar a música popular.
Em março de 1959, CARLOS LACERDA, fundou a sua própria orquestra, constituída por 30 figuras, concretizando, afinal, o seu grande sonho de ser maestro.
CARLOS LACERDA, o governador do teclado, neste LP interpreta músicas de DJALMA FERREIRA, numa seleção realmente das melhores.
Mas, agora, ouçam este "RECADO MUSICAL"...

CANIO GANEFF"

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FAIXAS:


1. Confissão - Djalma Ferreira/Luis Bandeira
2. Volta - Djalma Ferreira/Luis Bandeira)
3. Samba no Perroquet - Djalma Ferreira
4. Fala Amor - Djalma Ferreira/Luis Antônio
5. Choro Sim - Djalma Ferreira/Iza Ferreira
6. Cheiro de Saudade  - Djalma Ferreira/Luis Antônio
1. Recado - Djalma Ferreira/Luis Antônio
2. Lamento - Djalma Ferreira/Luis Antônio
3. Samba do Drink - Djalma Ferreira
4. Devaneio - Djalma Ferreira/Luis Antônio
5. Murmúrio - Djalma Ferreira / Luis Antônio
6. Casa de Loló - Djalma Ferreira/Dias Bicalho
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2 - Lacerda - Um Piano da Bahia - 1963

LP 12" - Audio Fidelity - AFLP 1998 / AFSD 5998



Luiz Vieira escreve na contracapa de Um Piano da Bahia, segundo LP do pianista Carlos Lacerda:

LACERDA
UM PIANO DA BAHIA
AFLP - 1998


Alô!
Fui incumbido pela direção da "AUDIO FIDELITY", para escrever a contra capa deste LP de Carlos Alberto de Lacerda, o moço que eu tive o ensejo de conhecer há cerca de um ano atrás, quando desejei estrelar um meu programa na TV Itapoan de Salvador e precisei da colaboração deste jovem talentoso Maestro, orquestrador, professor da Reitoria do Estado e, hoje, pianista oficial do Palácio do Governo da Bahia.
Não desejo estender-me muito a respeito de Lacerda aqui, pois creio que o melhor mesmo é procurar ouvi-lo e o disco está aí. Quero todavia acrescentar o seguinte: - Se você sentiu a saudade bater aos umbrais de sua alma entristecida pelos desenganos... ouça este disco e se sentirá melhor. Se você, na vertigem febril e delirante de um amor qualquer, traz em seu ser uma esponja embebida de soluços derradeiros... ouça este disco de Lacerda e se sentirá melhor. Mas, se você, nunca sentiu saudade porque na busca frenética de fervidas espumas de crença ainda não encontrou nenhum... ouça Lacerda no lado B deste LP e sentirá saudade e ternura agora. - Ouça Aloísio Silva, um novo cantor de Salvador que estamos lançando neste mesmo LP de Lacerda, cantando duas músicas preciosas do próprio Carlos Alberto e sinta a voz meiga e acariciante que tem esse rapaz, cuja sinceridade de interpretação, mais parece uma ventura doce ou luz infinita de amor espalhando ternura como o riso de uma criança que assiste pela primeira vez o nascimento de uma rosa. Lacerda, este extraordinário Lacerda, que é bisneto de Antônio Francisco de Lacerda, o homem que construiu o mais famoso elevador da lendária, mística e divina cidade do Salvador e que porisso mesmo é chamado elevador Lacerda. Nosso pianista e maestro Lacerda, é, consequentemente, um nome que já traz do passado, uma eloquência caprichosa partilhada de certa tradição da grande terra baiana.
Lacerda é ainda comandante de uma das melhores orquestras da Bahia. Sua "banda", conta com mais de trinta figurantes, quase todos professores da "SINFÔNICA" de Salvador. Todos são unânimes em afirmar: “Lacerda é um extraordinário". Lacerda consegue ter em si mesmo, o "dom" divino de uma versatilidade musical invejável e fora do comum. Em sua arte, ele se estende a proporções fabulosas. Além do maestro e arranjador fenomenal, como músico executante, vai com um brilho quase indizível pelo seu encantamento, desde a música erudita, até ao mais moderno e imensamente atual gênero popular brasileiro, como poderão notar no lado A deste doze polegadas, onde a "ginga" característica do "sambalanço" e da "bossa-nova" se acham tão a gosto da nossa gente moça. Creio que assim, posso apresentar em alguns traços, a figura deste moço notável que toda a Bahia se orgulha e aplaude. Espero agora que, se você ainda não o conhece, procure fazê-lo já, botando no prato de sua eletrola o disco, para ter a oportunidade de endossar a nossa opinião a respeito deste jovem. Mas!... cá para nós, tenho certeza de que você dirá nem que seja em silêncio: - "Salve a Bahia sinhô, que dá um cabra da peste desse, bom prá homem nenhum botar defeito".
LUIZ VIEIRA



 Lacerda - Um Piano da Bahia: capa, vinil e contracapa

FAIXAS:



Lado A
1. Hino do Carnaval Brasileiro - Lamartine Babo
2. Pó de Mico - Nilo Viana/Dora Lopes/Renato Araújo/Arildo de Souza
3. Recordar - Aldacir Louro/Aloísio Marins/Adolfo Macedo
4. Colombina - Armando Sá/Miguel Brito
5. A Lua é Camarada - Armando Cavalcanti/Klécius Caldas
6. Prelúdio Prá Ninar Gente Grande - Luiz Vieira
Lado B
1. Tim-Dom-Dom - João Melo/
Clodoaldo Brito (Codó)
2. O Barquinho - Roberto Menescal/Ronaldo Bôscoli
3. Chora Coração - Denis Brean/Osvaldo Guilherme
4. Improviso na Sala Três - Francisco de Paula Gondim
5. Pequenininha - Carlos Lacerda
6. Canção do Amor Que Vai - Carlos Lacerda (Interpretação: Carlos Lacerda / Aloísio Silva)
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3 - Carlos Lacerda - Piano de Informal (e Bossa) - S/D


No  LP  Carlos Lacerda - Piano de Informal (e Bossa), gravado na JS Discos, o pianista registrou composições próprias e parcerias de Henrique Gregori, Carlos Coqueijo, Alcyvando Luz, Djalma Corrêa, Ildásio Tavares, Antonio Carlos Pinto, Jocafi, Paulo Gondim e J. Sebastian Bach.

Desintegração
Composição: Alcyvando Luz/Ildásio Tavares/Djalma Correa
Interpretação: Carlos Lacerda - Trio 

 

Carlos Lacerda: Piano de Informal (e Bossa)
LP gravado nos Estúdios JS, em Salvador
JS Discos - LP No. 9.003
Desenho da capa: Carybé

Jorge Amado escreveu na contra-capa desse disco:
"O MÚSICO LACERDA
Esse pianista e compositor Carlos Lacerda é neto do Elevador Lacerda, ou seja, - neto do construtor do Elevador Lacerda, engenheiro ilustre e progressista. Já nasceu o jovem Carlos ligado à própria vida da cidade do Salvador, numa família dada às matemáticas. Ora, como se sabe, a matemática e a Música são vizinhas e parentes. Assim, em vez de engenheiro, deu um músico, o nosso Carlos.
Quem lhe descobriu o talento foi o maestro H. J. Koellreutter, cuja obra na Universidade da Bahia perdura até hoje em suas consequências e em seus resultados. O ilustre músico tomou o moço Lacerda sob sua orientação, seu primeiro importante mestre. Viria também o pianista professor Pierre Klose, também fundamental na formação do musicista baiano e viria depois Bené Nunes, que se fez amigo particular e lhe ensinou os segredos de um piano popular ao mesmo tempo de alta qualidade. Vieram seus companheiros e amigos compositores, pianistas, maestros, músicos diversos, como Paulo Gondim, Henrique Gregori, Júlio Medaglia, Carlos Veiga,  Luisinho Eça, Ubirajara Quaranta, Fernando Lopes, Sílvio Crespo, Benito Juarez, Hermes Fernandes, Moisés Mandel e Yulo Almirante Brandão, cuja personalidade irrequieta inspirou o neologismo "YULESKA", com que Paulo Gondim batizou uma de suas composições. Esta composição abre este LP de Carlos Lacerda e onde estão músicas do próprio Carlos, de Jocafi, Alcyvando Luz, John Sebastian Bach, Ildásio Tavares e do maestro Henrique Gregori, cuja personalidade é de vital importancia ao próprio Carlos.
Composições de autores brasileiros que se impõem por si mesmas e também pela interpretação e do excelente pianista que é Carlos Lacerda. Acompanhado por MOACYR (baixo), TUTI (bateria) e MIGUEL (ritmo), o jovem maestro baiano mostra neste LP do que é capaz, exibe seu domínio do instrumento e seu talento de musicista.

Carlos Lacerda é um nome popular na Cidade do Salvador e no Estado da Bahia. Não quis ele viver das glórias do avô, grande engenheiro, o Lacerda do Elevador. Fez seu caminho, marcou sua presença, deu à família de engenheiros a sonoridade da música. Ainda muito moço, todas as portas do sucesso estão abertas em sua frente.
JORGE AMADO."


FAIXAS:
1. Yuleska - Paulo Gondim
2. Fim de Tarde em Amargosa - Paulo Gondim
3. Desintegração - Ildásio Tavares/Alcyvando Luz/Djalma Correa
4. Napoli 1005 - Carlos Lacerda
5. Apolo 11 - Antônio Carlos Pinto/Ildásio Tavares/Berimbau
6. Estudo Nº1 - Paulo Gondim
1. Menina dos Olhos Tristes - Carlos Lacerda/Jocafi
2. Temas Folclóricos Baianos - Tradicional
3. Giboeirinha - Carlos Lacerda
4. Kredo - Henrique Gregori
5. Variações Sobre o Prelúdio N.º 4 - Johann Sebastian Bach
6. A Morte do Amor - Antônio Carlos Pinto/Jocafi/Alberto Santos Pinheiro


Giboeirinha: versão instrumental

Giboeirinha
Composição: Carlos Lacerda
Interpretação: Carlos Lacerda




Composições
- Amor sem Fim
- Beijos Perdidos pela Noite (Carlos Lacerda/Jorge Amado/Dorival Caymmi )
- Cala Teu Sorriso
- Carrossel
- Credo (Carlos Lacerda/Henrique Gregori/Carlos Coqueijo)
- Estrela Azul
- Giboeirinha - Prelúdio - 1959
- Maria

- Menina de Trança num Dia de Sol (Carlos Lacerda/Cid Seixas) - I Fest. Nordestino da Mús. Popular/1969
- Menina dos Olhos Tristes - 1971 (Carlos Lacerda/Jocafi) -
Gravada por Luiz Vieira e Pery Ribeiro
- Napoli 1005
- Pequenininha
- Quando Eu Parti - Movimento 1 (Luiz Vieira/Carlos Alberto de Lacerda)
- Tema de abertura do I Festival Nacional da Canção Popular da TV Excelsior (Carlos Lacerda/Carlos Coqueijo)
- Tristeza (Carlos Lacerda/Edil Pacheco) - G
ravada por Jair Rodrigues, Wilson Simonal e outros;
- Vou chorar (Carlos Lacerda/Carlos Coqueijo) 

Lacerda deixou inacabada uma Suíte Sinfônica sobre um tema de Tom Jobim.

Giboeirinha, composta como um tema instrumental, ganhou letra  do próprio Lacerda, posteriormente, e foi gravada pelo cantor baiano Osvaldo Fahel, por Luiz Vieira, Matilde Nogueira, Tom e Dito, [Compacto simples (S/D) Orange Discos CS-OR 01] entre outros.

Matilde Nogueira: Compacto Duplo - JS Discos, CJ-1.003
Giboeirinha; Manhã de Primavera; O Menino de Invasão*; Cantiga do Amor Imenso.
(*) O menino de Invasão: (Fernando Lona - Geraldo Portela) com Matilde Nogueira e Trio Xangô



Luiz Vieira: Compacto Simples Copacabana - M 0527
 
Lado A: Quando Eu Parti - Movimento 1 (Luiz Vieira/Carlos Alberto de Lacerda)
Lado B: Giboeirinha - Prelúdio (Carlos Alberto de Lacerda)

Arranjos: Moacyr Portes

 
Giboeirinha
Composição: Carlos Lacerda
Interpretação: Luiz Vieira 
Adeus, giboeira linda 
Tanta coisa linda nos aconteceu
Você fez eu lhe querer, deu-me a paz do mar,
Deu-me um céu de luz, sem querer depois

Adeus, padroeira minha

 Minha deusainha
Meu amor só meu
Meu céu, já um céu sem lua
Pela ausência sua, se perdeu no céu.
(Falado)
Adeus, Giboeira linda
Você deu-me a paz do mar
Deu-me um céu de luz
Sem querer depois
Adeus
Palavra que arde
Me queima a boca de dor
Neste gosto de saudade
Se abrindo em forma de flor

 Carlos Lacerda, César Ladeira, Luiz Vieira
Foto: Foto Jonas, Av. 7 Nº 51 (Acervo da família)

O cantor baiano José Emmanuel, embora não registrando em disco a canção, foi quem mais cantou Giboeirinha, na TV e nos bailes noturnos nos clubes de Salvador. O violinista Osmar Pinheiro, em seu livro, relata que presenciou o momento em que Lacerda compôs e arranjou a sua obra prima, por ocasião do aniversário do maestro em 1959, numa das suas longas jornadas musicais, através da madrugada. (Ver trecho do livro, transcrito mais adiante neste post). 
 
LP E... Moacyr Franco (1965) RCA Victor BBL 1337



Quando Eu parti
Composição: Luiz Vieira / Carlos Alberto Lacerda
Interpretação: Moacyr Franco


Quando eu parti
Foi pra buscar
Na flor que o tempo
Fez se debruçar
Meu coração
Tombado em prol
Do amor em paz
O amor que faz
Se aceitar a dor
Sem reclamar

Quando eu parti
Foi pra buscar
O que perdi
Pra me encontrar



 
José Emmanoel - Compacto JS

Pequenininha
Composição: Carlos Lacerda
Interpretação: José Emmanoel
 Piano: Carlos Lacerda

A noite trouxe pra mim
Pequenininha
Certeza do meu amor
Pequenininha
Como esperei tanto tempo
Pra lhe dizer
O que vai ser
Do meu amor
O que vai ser
Do nosso amor

O tempo foi tanto tempo
Pequenininha
Mas tudo se cumprirá
Pequenininha
Com a presença do mar
Com a certeza que eu tinha
De um dia lhe encontrar
Pequenininha 


 


Vários Artistas - I Festival do Samba na Bahia
 

Maria

Composição: Carlos Lacerda
Interpretação: Inema Trio

Há uma coisa em seus olhos
Que eu não consigo entender
E eu precisava saber
Pra começar a viver

Maria
Seus olhos me dizem, Maria
De um amor que começa num dia
De um amor que não vai acabar

Maria
Que bom se a vida, Maria
Passasse a ser toda Maria
E eu não mais lhe visse sofrer

Você respirando este mar
Você começando a chegar
Você crendo mais em você
Pois o tempo não sabe esperar

Maria
Me fale da vida, Maria
Você que é a própria Maria
Você que eu vivi de esperar



 Pery Ribeiro LP Odeon - MOFB 3674

 
 Menina dos Olhos Tristes
Composição: Carlos Lacerda / Jocafi
Interpretação: Pery Ribeiro

Menina dos olhos tristes
Onde é que você me leva que eu não sei
Vou correndo em mar aberto
Quanto mais longe, mais perto, eu chego lá

Vou correndo igual menino
Sem receio e sem destino, mas eu vou
Campo aberto Amaralina
Esta noite é toda linda, eu vou pra lá
Logo mais Boa Viagem
Na viração forte ou fraca, eu vou chegar
Sei que ela esta me esperando
Por isso eu não tenho pressa, eu chego lá



 Primeiro LP de Edil Pacheco: Pedras Afiadas/1977 - Polydor 2451 104

 Tristeza
Composição: Carlos Lacerda / Edil Pacheco
Interpretação: Edil Pacheco

Tristeza não insista em querer ficar
Meu pranto há muito tempo enxuguei
A alegria é minha namorada
O riso simboliza o meu mundo
Não quero nem saber de solidão
Tristeza deixa em paz meu coração

Já me acostumei ao mundo que criei pra mim
Não aceito mais ficar alegre sem sofrer
Sinto o mundo inteiro invadir meu coração
Se você pensa que vou lhe aceitar, juro que não.

CD Dorival Caymmi/1994
Columbia/Sony Music
850.346/2-464500


 
Beijos Pela Noite
Composição: Carlos Lacerda / Jorge Amado / Dorival Caymmi
Interpretação: Danilo e Simone Caymmi

Aqui, o teu corpo nos meus braços
Nossos passos pela estrada
Nossos beijos pela noite
E a lua pelos campos, minha amada
Pelos bosques, pelas águas
Acompanha o nosso amor

Hoje, já passado tanto tempo
Pela noite escura e triste
Pelas frias, alamedas
A chuva apaga a marca dos teus passos
E o caminho abandonado
A saudade é o meu luar

Aqui...

Um dia sentirás a mocidade
No teu corpo fatigado
Da saudade nos caminhos
Então, sob a lembrança dos teus beijos
Nosso amor adolescente
Poderá recomeçar

Aqui...






Yuleskas e Lacerdeskas: Paulo Gondim
O pianista Francisco de Paula Gondim, natural de Fortaleza-CE, mas radicado na Bahia desde 1957, é compadre de Carlos Lacerda, que batizou seu filho Luis Fernando Gondim, também músico (flautista). Na  obra composicional do cearense-baiano, registrada em discos, encontramos referências ao maestro.

Paulo Gondim - 3 Peças para piano solo  - Salvador/Ba Nov. 2000
 
(Gravadas no CD Family Album-1997)
Fim de Tarde em Amargosa - Dedicada a Nini Gondim
Yuleska (Estudo - 1959) - Dedicada ao prof. Yulo Brandão
Lacerdeska (Estudo - 1978) - Dedicado ao compadre Carlos Alberto de Lacerda

Depois da referência ao professor Yulo Brandão (contemporâneo de ambos, nos Seminários de Música) na peça Yuleska, Paulo Gondim presta também homenagem ao maestro, na obra Lacerdeska, expressando definitivamente sua admiração por esse expoente da música baiana. Essa peça, segundo Gondim, foi composta para ser tocada por Lacerda, que infelizmente faleceu logo depois e não chegou a tocá-la. Carlos Lacerda já havia registrado  as composições Yuleska, Fim de Tarde em Amargosa, e o Estudo nº 1 (Estudo em Sol bemol), de Paulo Gondim, no seu disco Piano de Informal (e Bossa). Essa última peça, considerada por Gondim uma obra de difícil execução, foi tocada por Lacerda sem a preocupação de consultar a partitura. "Ele gostava de aprender as músicas de ouvido e raramente precisava ver as partituras", o que comprova a sua genialidade como músico.
Se analisarmos as peças citadas, veremos que se trata de um trabalho belíssimo de composição pianística, de um músico que não apenas domina incrívelmente o seu instrumento, mas demonstra alto nível de criatividade e de elaboração musical.

 CD Family Album-1997

 
Lacerdeska
Composição: Paulo Gondim
Interpretação: Paulo Gondim

 Carlos Lacerda no encarte do CD Puro Prazer, de Paulo Gondim



Temos aqui um relato do músico gaitista Leo Barros que, em algumas performances na TV Itapoan, no início dos anos 1960, teve o privilégio de tocar com Carlos Lacerda:

[...] "Quando a televisão apareceu por aqui, lá estava eu querendo aparecer na telinha. E não é que consegui? Por volta de 1962, toquei em alguns programas musicais, acompanhado por um famoso pianista da terra (Carlos Lacerda) e também do violonista Alcivando Luz, reconhecido pelo seu talento e criatividade. Já em 1963, formamos um trio - uma gaita solo – Leo Barros, outra no contracanto – Hélio e uma gaita baixo – Fausto – sobre o qual falei antes. Com esse trio fizemos algumas apresentações na TV Itapuã (a única à época). O “Harmônica Trio”, era como chamava-se o grupo, não tinha influência de outros grupos. Foi o desenvolvimento de uma idéia local de amigos adolescentes que tinham a mesma afinidade. O Fausto tocava piano, Hélio tocava acordeon, e os três tocavam gaita, dai nasceu a idéia. O trio não durou muito. Desde aquela época, Salvador já não tinha muita receptividade para a música instrumental, muito menos para um conjunto de gaita." [...]
 
Assim, vamos percebendo o quanto o eclético Carlos Lacerda, ao persistir em permanecer em Salvador, remava contra as correntes do pensamento musical acanhado dos produtores e empresários locais da sua época, que resistiam ao estilo de música instrumental e recusavam sistemáticamente o trabalho inédito dos compositores da terra.


Carlos Lacerda por Osmar Pinheiro
Transcrição literal de trecho do livro do grande violinista baiano Osmar Pinheiro, em que descreve a sua convivência e a sua admiração por Carlos Lacerda:

 [...] Foi ainda no período dos Seminários de Música que conheci outro valor baiano da bela arte. Era o jovem pianista Carlos Lacerda, que também estudava naquele conservatório.
Formara ele uma orquestra popular incluindo também um naipe de cordas e que marcou época na história da música popular da Bahia.
Os arranjos que ele mesmo fazia davam um colorido especial às mais conhecidas e bonitas melodias inesquecíveis.
Fui logo convidado pelo jovem maestro a integrar a sua orquestra e passei a ser um dos seus violinistas preferidos, até quando Deus o levou para seu naipe divino lá do céu.
Até hoje lhe rendo a minha homenagem tocando a sua "Giboeirinha", uma melodia de sua autoria e que me traz a recordação de um fato ocorrido quando ele fazia a música.
Convidou-me certa ocasião para tocar um coquetel no Hotel da Bahia, com início previsto para 21 horas e encerramento às 23 horas. Era o dia também do seu aniversário natalício. Como gostava de tomar muito uísque, naquele dia procurei acompanhar o rojão do maestro, aproveitando a especial bebida que ser servia naquele coquetel.
Terminada aquela solenidade ele chama o violinista Florisvaldo Meireles e eu para irmos continuar a comemoração do seu aniversário em sua residência no Rio Vermelho.
Naquela época eu possuía o meu primeiro carro, um Jeep mod. 1954 e ainda estava começando a dirigir.
Fomos à casa do Carlos Lacerda e lá continuamos a beber. O Lacerda passou a compor a sua "Giboeirinha" e em pouco tempo já nos passava o arranjo dos violinos, com ele acompanhando ao piano.
Uma alteração aqui, outra ali; faz novo rascunho, toma-se nova dose e quando o seu genitor abre a janela da casa, já era dia, com aquele sol brilhante que enfeita as manhãs claras do Rio vermelho.
Fui às pressas, para casa, lá chegando por volta das 5 horas. Todos choravam e a minha esposa desde às 4 horas da manhã tinha ido com o mano Oscar à minha procura nos Prontos Socorros, polícia, etc.
Felizmente que a história era verdadeira...
Quantas alegrias tivemos tocando com o saudoso Carlos Lacerda por esse Brasil afora e em muitas cidades do interior baiano.
Recordo-me que num "Reveillon" do Baiano de Tênis, o mais tradicional baile desta capital, fomos convidados para tocar. A festa começou às 23 horas e lá estava a mais fina sociedade soteropolitana.
A orquestra entoava suas lindas melodias, acompanhada pelos violinos, celos e contra-baixo, coisa inédita na Bahia.
Nenhum dos presentes arredava os pés de suas mesas. Olhos fixos na orquestra e no piano dedilhado com tanta criatividade do Carlos Lacerda. Era mais um concerto musical do que uma festa dançante.
Somente às 24 horas, após o toque do hino nacional, seguiu-se o derrame da saborosa champanhe, é que aquela educada sociedade passou a quebrar o silêncio da noite, sempre cheia de aplausos para a orquestra do maestro Lacerda.
Dava um gosto imenso ouvir aquele conjunto. Tantas e tantas oportunidades brilhantes tivemos, quer em palácio dos nosso governadores, em residências de magnatas, em teatros e logradouros públicos.
Quando da visita do Presidente Juscelino Kubtscheki a esta Capital, lá estava Carlos Lacerda e sua Orquestra de Cordas tocando para o Presidente.
E foi assim que pela primeira vez pude apertar a mão do mais alto mandatário brasileiro, pois o Juscelino, com aquela simpatia que lhe era peculiar, veio cumprimentar um a um dos musicistas que ali estavam.
Com o Carlos Lacerda eu adquiriria o meu primeiro permanente, um convite para presenciar os melhores espetáculos, as grandes solenidades e os maiores acontecimentos baianos, privilégio de poucas autoridades e de alguns ilustres homens. [...]

Fonte:

Osmar Pinheiro
Meu Colégio, Minha Vida. 1986. Págs. 85-86

Jocafi e seu "pai musical"
José Carlos Figueiredo era admirador do violonista baiano  Codó, já que tinha adquirido as primeiras noções de violão. Logo depois, começa a compor e a participar de festivais de música, quando inevitávelmente conhece Carlos Lacerda. Por incrível que pareça, viria a conhecer o seu futuro parceiro Antônio Carlos Pinto, por intermédio de Lacerda. Jocafi se refere ao maestro como o pai musical de quase todos os artistas baianos que surgiram naquela época.

Trecho de depoimento de Jocafi a Aramis Millarch - 1974
Jocafi:
[...] "A primeira música, realmente que foi notada, minha mesmo, eu fiz com um camarada que hoje é meu compadre, chamado Alberto Pinheiro, que foi Menina do Tororó, que foi quando eu disputei um Festival Brasil Canta no Rio, da Excelsior. Foi quando eu conheci Lacerda, que me fez conhecer Antônio Carlos. Realmente, a gente só se conheceu. Não houve, assim, aquela transação maior. A gente somente se conheceu nessa época. E aí, ele foi pra um lado e eu fiquei no outro. Eu não tinha grupo, nem ele. Apesar de que existiam grupos na Bahia na época. Existia o "grupo baiano", que era Caetano e Gil, aquele pessoal lá deles. Mas eu não fazia parte de nenhum grupo e  nem Antonio Carlos fazia, também de nenhum grupo. A gente conhecia Lacerda, porque Lacerda era um camarada que foi o "pai musical" de quase todos os baianos que saíram naquela época. Acho que ele só não foi  pai musical de Caymmi, porque Caymmi veio muito antes dele [...]
[Entrevista a Aramis Millarch - Maria Creuza, Antonio Carlos e Jocafi
Fonte: Acervo Aramis Millarch


Texto de contracapa: LP de Josmar Assis
Transcrição literal do texto de contracapa escrito em 1974, por Carlos Lacerda, para o LP Sonhos D'Alma, do violinista baiano Josmar Assis:
Josmar Assis - LP Sonhos D'Alma
Som - Ind. e Com. S/A (Grav. Copacabana) SOLP 40535 - 1974

"Numa noite de Junho de mil novecentos e cinquenta e poucos, enquanto me preparava para sonhar com Dulcinéa - todo Artista tem algo de Dom Quixote - ouvi uns lamentos soando das cordas de um violão. Identifiquei a música: Tristesse de Chopin! Saí à rua. Sentado na calçada, estava um jovem abraçado ao violão. Aproximei-me, mas ele não interrompeu a Música. terminado o último acorde, disse-lhe: Puxa, amigo meu, quanta tristeza e solidão. - É, respondeu-me. Tentei fazer uma serenata para minha namorada, mas o pai dela acha que Artista não pode nem passar pela sua porta, e eu resolvi ficar aqui; a noite mandou você, e agora já não estou mais só. Você gosta de Música?
- Eu toco piano. E você porque preferiu o violão?
- Olhei para todos os instrumentos - respondeu-me - mas quando enxerguei o Violão, senti que só a ele poderia abraçar, e assim ele estaria sempre perto deste meu coração.
Foi assim que conheci esse Artista de nome Josmar e sobrenome Assis. O tempo seguiu seu curso, e Josmar atirou-se de vez à Música. Sua primeira professora foi a Madrugada! Depois, Josmar percebeu que durante o dia, poderia buscar técnica, e buscou a professora Hedy Cajueiro. Ela lhe ensinou tudo que sabia. Aí foi um nunca terminar, mas sempre começar...
...Naquela época, havia o Seminarius Livres de Música, dirigido pelo Maestro H. J. Koellreutter, que ao ouvir Josmar, tomou-o como seu aluno; e assim seguiu Josmar Assis aprendendo com o Maestro, Harmonia, Contraponto e História da Música. Na famosa Sala Três do Seminarius, seu curso de violão, era ministrado pelo esteta Yulo Brandão. O lente exceleu-se, ao perceber o "vibratto" de Josmar, considerando-o, já, um "virtuose". Com os professores José Carrión e Maria Lívia São Marcos, Josmar Assis aprimorou-se o suficiente para tornar-se um renomado concertista, emprestando seu talento à Televisão por muitos anos.
Tornou-se Sociólogo. Desde 1964 é professor do Instituto de Música da Universidade Católica do Salvador, Coordenador do Coral e chefe do Departamento de Sopros e Cordas da referida Universidade.
Josmar não quis entrar naquele "inventiva" da chamada música enganadora, essa tal de "música estruturada", feita com papel amarrotado, lata de lixo, maniveladas e outras "coisas mais" - preferindo executar a sua Música como um Todo. Universalizando-a, ao invés de juntar-se a grupetos hermeticamente fechados de "geniosos" talentos estereotipados.
Hoje, mais maturo e mais humilde, mais artista e mais músico, é o responsável direto pela Coordenação de Música e Artes Cênicas da Fundação Cultural do Estado da Bahia. Posso afirmar que, Josmar Assis, é o violonista-concertista mais conceituado deste nordeste brasileiro.
MAESTRO CARLOS LACERDA"


 Carlos Lacerda abraçado por José Vasconcelos,
famoso ator, humorista e imitador.



Carlos Lacerda, um "músico simples"

Ricardo de Benedictis é uma das vozes que fazem coro com os inúmeros admiradores de Carlos Lacerda e é dele que transcrevemos, a seguir alguns trechos de artigo publicado no Recanto das Letras em 18/09/2005.
Ricardo relata o seu convívio com artistas locais e de fora, em memoráveis encontros regados a música na Zucca Pizzaria (próxima ao Farol da Barra) e no restaurante Tarrafa (que ficava vizinho ao convento da Lapa), ambos pertencentes a Rubinho, seu grande amigo e admirador.

[...] "No Tarrafa, bar/restaurante intimista, freqüentava a classe média da Bahia. Alguns  artistas faziam dali seu ponto de encontro. Entre estes, eu, Carlos Napoli, Carlos Lacerda, Guido Guerra, Antonio Carlos Sena, Edil Pacheco, entre outros. Ali tivemos a oportunidade de conhecer os grandes compositores Luiz Vieira, Sérgio Bittencourt, entre outros.

Nosso amigo e partícipe de longos papos noturnos, Carlos Lacerda era o grande pianista da Bahia, contratado pela TV Itapoan, figura obrigatória nos grandes espetáculos musicais, numa época em que a música acústica reinava. A eletrônica não havia entrado no mercado ainda, apesar de vir ensaiando os primeiros passos...

Carlos Lacerda gravou um LP vinil "O Governador do Piano" pois o seu homônimo, jornalista carioca, era figura de proa na política, responsavel pela queda e suicídio do presidente Getúlio Vargas. Êle era um grande amigo. Bom músico, simples, humilde, era um profissional da música, muito festejado pela sociedade da Bahia. Teve uma grande paixão pela artista conquistense Ilma Gusmão, em cuja homenagem compôs A Jiboeira, uma vez que Ilma havia nascido em Vitória da Conquista e sua família é oriunda da Jibóia, na zona rural." [...]
 
[Publicado no Recanto das Letras em 18/09/2005]

Esta é uma das raras referências ao significado do título da composição Giboeirinha, que vimos nascer, através do relato do violinista Osmar Pinheiro. Carlos Lacerda tinha uma veia poética e um dom de recriar as palavras, como fica evidente no jogo feito com Gibóia, (o nome do lugar) e Giboeira (a pessoa originária desse lugar), que afetivamente se torna Giboeirinha. Observe-se também  a criatividade em "minha deusainha", na mesma canção. Um dos intérpretes que mais conhece essa canção é José Emmanoel, que a cantou muitas vezes, mesmo sem ter chegado a registrá-la em disco.



Carlos Lacerda e o cantor lírico João Caria, na década de 1960.
Foto: acêrvo da família Schoucair Caria.



Carlos Lacerda - Uma Biografia


Capa e CD encarte do Livro Carlos Lacerda, de Maria José Quadros,
publicado pela Assembléia Legislativa da Bahia - Coleção Gente da Bahia,
no dia 13 de dezembro de 2010.



Livro Carlos Lacerda, coleção Gente da Bahia, Assembleia Legislativa da Bahia. Autora: Maria José Quadros, 2010.

Da orelha 01:
CARLOS LACERDA
Um Piano da Bahia

Produtor: Roberto Torres
Remasterização e tratamento digital de áudio: Bira Paim

"Os direitos fonográficos relativos ao LP, agora convertido para meio digital foram gentilmente cedidos para esta edição pelos herdeiros do pianista e compositor. Os dois mil exemplares serão distribuídos gratuitamente encartados ao livro Carlos Lacerda, integrante da coleção Gente da Bahia, publicado pela Assembleia Legislativa da Bahia.[*]
Apesar dos esforços da Assessoria de Comunicação Social da Assembleia Legislativa da Bahia, ACS/AL, não foi possível identificar as editoras controladoras de todos os fonogramas selecionados para este lançamento. A ACS/AL terá imensa satisfação em restaurar qualquer situação correlata pendente em edições futuras."

Da orelha 03:
"As músicas constantes neste CD foram gravadas no disco LP original de vinil 33 1/3 rpm em gravador de fita Ampex modelo 350, empregando microfones Telefunken, RCA e Eletrovoice com frequência entre 16 e 25.000 ciclos, finalizando em sistema de ALTA FIDELIDADE (HiFi) através da empresa AUDIO FIDELITY DO BRASIL (SP).
Os acetatos-masters foram cortados em máquina Scully automática com cabeça de gravação Grampian, sistema Feedback, alimentada por amplificadores de 200 Watts."


[*] Autora: Maria José Quadros, 2010.

 Texto da contracapa do livro, assinado por D. Timóteo Abade, que era amigo e conselheiro de Carlos Lacerda:
"Lacerda foi um filho da noite abençoada, e viveu isto pela música, arte noturna por excelência, com o seu poder de inventar sem contradições solares, sem limitações civis, sem conveniências sociológicas. Ele é um rei nos braços da noite, seu domínio e mãe. O seu império não é, portanto, o mando solar dos 'chefes' públicos. (...)
Lacerda foi, antes de tudo, um cidadão livre do reino noturno. Por isto, não foi um político, que tem o seu lugar no dia, para tentar organizar, bem ou mal, a cidade dos homens. Foi um artista, e nada mais. Fiel a este centro da sua personalidade, tudo mais que devia fazer é marcado peor essa identidade maciça e sem costuras. É como artista que ele foi cidadão do mundo solar, reservista e eleitor e funcionário. Como artista foi possuído pelo amor. Feliz o homem que se deixa invadir pelo amor, e que não quer nem faz nada, que não seja qualificado pelo amor."

D. Timóteo Amoroso Anastácio
Agradecimentos à família do maestro Carlos Lacerda, especialmente a Constance Lacerda, que gentilmente cedeu algumas fotos para esta postagem. 
Assim, Linha do Tempo da Invenção Musical é o primeiro a apresentar fotos do maestro Carlos Lacerda na internet, no momento em que o músico completaria 76 anos de nascimento, e aos 31 anos sem a sua mágica presença.




Fontes:

Maria José Quadros
- Carlos Lacerda - Um Piano da Bahia - Coleção Gente da Bahia - A.L./BA
Luiz Américo Lisboa Junior, 2003.

http://www.luizamerico.com.br/news/index.php?sec=ext&act=read&id=MZn97059cff54
Ayêska Paulafreitas
- Da JS à WR: apontamentos para uma história da indústria fonográfica na Bahia;
- Trajetória da Indústria Fonográfica na Bahia
Carolina Menezes de Almeida Santos
- Diversidade musical e as atividades da Secretaria de Cultura e Turismo da Bahia na área de música: 1995 a 2006

Osmar Pinheiro, 1986
- Meu Colégio, Minha Vida. Págs. 85-86

Encarte do CD Resgate da Memória Musical da Primeira Gravadora da Bahia. Salvador, 2002.
Paulo Gondim - 3 Peças para piano solo  - Salvador/Ba Nov. 2000 
Josmar Assis - LP Sonhos D'Alma - Som - Ind. e Com. S/A (Grav. Copacabana) SOLP 40535 - 1974
http://www.memoriamusical.com.br/
Perfil MySpace de Carlos Lacerda (por José Emmanoel)
http://www.myspace.com/556262263
Acervo Aramis Millarch
http://www.millarch.org/audio/maria-creuza-antonio-carlos-jocafi
http://recantodasletras.uol.com.br/cronicas/51546
http://sites.google.com/site/papodegaita/papo-da-vez-leo-barros
http://www.musicapopular.org/carlos-lacerda/

http://vinylmaniac1.blogspot.com.br/2012/04/carlos-lacerda-piano-de-informal-e.html

19 comentários:

  1. Muito bom! Muito obrigado. Sou sobrinho do Carlos Lacerda (filho de toninho) e fiquei surpreso pelo resgate. Parabéns.

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  2. Obrigado, xará!
    Toninho Lacerda é também um músico (como muitos outros, citados na postagem) que contribuiu com a história da música baiana e que a maioria desconhece, ou prefere esquecer. Não! Somos talentosos. Temos de buscar na história as razões, o norte e a inspiração do que fazer na atualidade, (talvez até retomando caminhos mais acertados), visando a produção musical de qualidade. Eu tenho certeza de que você segue esse curso.
    @braços, sucessos!
    Roberto Luis

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  3. Que lindo, Roberto! Tb sou filha de Toninho Lacerda, irmã de Luisinho (que comentou acima), e fiqui mto emocionada ao ler e ouvir as musicas, principalmente Giboeirinha! Tb agradeço, em nome de toda família Lacerda, esse belíssimo resgate que vc está fznd da memória cultural da Bahia musical!
    Obrigada e PARABÉNS!

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  4. Olá, Adelyne!
    Creio que eu sou o único que tem de agradecer, e a vocês, pois normalmente não vemos os familiares de importantes personalidades da cena musical, tão preocupados e atentos com a sua memória e o seu legado. Tão solícitos em prestar informações e atender às expectativas dos pesquisadores. Espero que todos continuem assim, para o bem da nossa cultura e da nossa história. Carlos e Toninho Lacerda fazem parte integralmente de ambas. Contem com o meu respeito e admiração.
    @braços, sucessos!
    Roberto Luis.

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  5. Oi Roberto,

    Sou prima do Toninho e Carlos Alberto e passei muitas férias da minha infância na casa do Rio Vermelho.
    Estou emocionada pelo seu resgate. Precisamos divulgar esse grande artista para a posteridade.
    Ivan Lins me disse que Lacerda o ajudou muito quando era diretor da TV. Eram grandes amigos, se correspondiam e Ivan tem por ele uma enorme gratidão.
    Nos anos 70, trouxe de presente para Janete Clair uma fita onde ele tocava "Clair de Lune". Uma lástima. Essa preciosidade se perdeu.
    PARABÉNS!!!!!!!!
    um abraço
    Neuza Caribé

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  6. Que bom, Neuza. Obrigado pelo seu comentário enriquecedor. Coincidentemente, eu estava perguntando ao José Emmanoel o endereço desta casa do Rio Vermelho, o qual ele não lembra, mas disse que ficava na ligação entre a Garibaldi e a orla, onde existiu a boate "Casarão", é isso? Você lembra com mais precisão o endereço? Não imagina o quanto é importante um dado como esse, pois complementa a história, com a noção espacial.
    Veja o post sobre José Emmanoel, que está cheio de referências a Carlos e Toninho Lacerda também:
    http://tempomusica.blogspot.com/2010/12/jose-emmanoel-um-talento-musical-da.html
    E volte sempre, já que as matérias vão sendo atualizadas com novas informações.
    @braços cordiais,
    Roberto Luis.

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  7. Roberto, sou Mayra Lacerda, jornalista e filha mais velha de Carlos Lacerda. Fiquei muito emocionada ao ver que ainda existem pessoas como vc, buscando o resgate de uma pessoa que teve muito a acrescentar na história da música baiana, com a alma, tecnica e sentimento que passava quando tocava piano. Pra ele, a música era tudo, por isso viveu e sobreviveu dela, como sua opção de vida.
    Teve uma infinidade de amigos, e quando desencarnou aos 45 anos, deixou como legado a humildade,de saber conviver com todos, sem preconceitos. Obrigado pelo belo trabalho

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  8. Repito, o único que tem que agradecer aqui sou eu.
    Vocês são um exemplo a ser seguido por todos aqueles que sejam descendentes de um ícone da cultura, como o nosso maestro: não temos o direito de deixar extinguir a chama da sua criação, pois é essa a herança que ele deixou para o mundo. Todo músico baiano, todo ouvinte, precisa saber quais os caminhos que foram trilhados, de forma artesanal e com muito empenho e dedicação por esse "pai musical", numa época que as tecnologias eram ainda escassas e o preconceito em relação à obra dos compositores baianos exercitado de forma aberta pelos que detinham o controle das mídias de informação. Carlos Lacerda ajudou muita gente, inclusive a vencer essas barreiras, agindo como um intermediador para muitos artistas iniciantes que mereciam uma oportunidade. Que o digam os meninos do Inema Trio e o próprio José Emmanoel.
    É impressionante como esse músico esquecia de sí e de forma altruísta até doava o cachê do seu trabalho, conforme relatado por J. Emmanoel.
    @braços, sucessos!
    Roberto Luis

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  9. Oi Roberto!
    Essa casa do Rio Vermelho fica na Rua da Paciência, nº7. Foi construida pelo engenheiro José Lacerda, pai de Carlos e nosso avô.
    Eu e meus irmãos, Mayra e Constance tb moramos lá. Neuzinha me mandou uma foto antiga, recentemente, se vc tiver interesse...
    Era um casarão enorme (tanto que hoje em dia virou uma "pousada"), dividido em 3 pavimetos (apartametos) independentes e chegamos a morar todos da familia lacerda, lá, como se fosse um prédio. Tinha um quintal incrível com lindas roseiras e frutas. bjs

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  10. Adelyme,

    Que bom que você retornou!
    E eu que estava trabalhando com a hipótese de ser a da Rua Euricles de Matos nº 6 (que depois passou a ser nº 111)...
    Mas, afinal havia uma ou duas casas no Rio Vermelho?
    Claro, tenho interesse na foto, quanto mais informação melhor.
    Obrigado pela colaboração, @braços!
    Roberto Luis

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  11. Conheci Carlos Lacerda nessa tal casa do Rio Vermelho, numa das minhas visitas a Ayeska, minha irmã e cunhada dele. Vi referências ao seu blog no FB e... aqui estou eu! Belo trabalho, parabéns e saudações de um carioca saudoso.
    Luis Paulafreitas

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  12. Obrigado, Luis. Como vemos, a "tal" casa, era um núcleo cultural importantíssimo, em Salvador naquele período, que, ao lado da TV Itapoan e dos Estúdios JS, congregava a nata da boemia e da alta musicalidade baiana. Graças ao modo carismático de CL, sua maneira convidativa e, claro, ao seu talento. Creio que ele deixou muitas sementes, sim. E muitas saudades.
    @braços, sucessos!
    Roberto Luis.

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  13. Olá, Roberto!
    Fiquei encantada com todo esse material sobre Carlos Lacerda, de quem fui contemporânea, ainda muito novinha, mas, como estudava música nos "Seminários de música da Bahia", conheci todo aquele povo.
    Em 59 ou 60, não me lembro quem levou Carlos Lacerda, Louise Maranhão, que estava filmando A Grande feira e Black Out lá em casa, que era na Ladeira do Papagaio, no Rio Vermelho e minha mãe tocou piano, ele também, os outros dois cantaram, foi um Sarau! Giboeirinha, para mim, é pura poesia, puro amor! Adoro cantá-la!
    Tenho um irmão, músico, Luciano Chaves, não sei se o conhece. Eu deixei o estudo de piano, com 17 anos.
    Outro nome da época, cantor, José Eduardo, se lembra dele? Foi antes de José Emmanoel, um pouco, dono de uma voz maravilhosa, venceu A voz de ouro ABC também.
    Parabéns por suas pesquisa, a gente se fala...
    Um abraço
    Vera

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    1. Olá, Vera
      obrigado pelo comentário. Sim, conheço Luciano Chaves, claro.
      Quanto ao José Eduardo, eu não poderia mentir: não lembro mesmo.
      Se vocês moravam no Rio Vermelho, isso só vem confirmar que o bairro era um celeiro de musicalidade, o que de certa forma se manteve. Recentemente, na postagem sobre Antonio Carlos e Jocafi, mais precisamente na parte que fala de Antonio Carlos, fiz referência a essa característica do bairro, fundamentado também no excelente livro do Ubaldo Porto Filho
      (PORTO FILHO, Ubaldo Marques. Rio Vermelho. Salvador: AMARV, 1991).
      Se puder contribuir com mais depoimentos, terei prazer em aceitar a sua participação outras vezes no nosso modesto blog.
      Abraços, sucessos!
      Roberto Luis

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  14. Carlos Lacerda dirigiu a banda Bahia Bossa?

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  15. Olá, Roberto,
    A priori, devo parabenizá-lo pelos importantes registros acerca do maestro Carlos Lacerda, a quem, apesar de eu ser baiano, desconhecia. E é com vergonha que o digo, mas lamentavelmente a história da música baiana se acha muito truncada, talvez fadada ao esquecimento. Por esta razão, resgates a exemplo dos seus, são de relevância ímpar. Impressionou-me sobremaneira a música Giboeirinha pela beleza singular. Aproveito para pedir-lhe um favor especial: gostaria de salvar no meu computador a referida música, mas a mim parece que é impossível o download. Meus conhecimentos de informática são muito elementares. Se você puder me ajudar, fico-lhe imensamente grato.
    Forte abraço,
    Raimundo Matos
    e-mail: ragioma@yahoo.com.br

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    1. Raimundo Matos,
      obrigado pelo comentário. A composição Giboeirinha foi muito bem interpretada também pelo cantor baiano José Emmanoel, como pode ser constatado no vídeo a seguir. Um registro raro, histórico, só recentemente divulgado:
      http://youtu.be/elPKYbyP7lw
      Mais sobre José Emmanoel aqui:
      tempomusica.blogspot.com.br/2010/12/jose-emmanoel-um-talento-musical-da.html

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  16. Roberto, estou encantada com o site para o grande Carlos Lacerda, que foi o meu segundo pai. Além da música uma das pessoas mais amorosas e incríveis com quem eu convivi.

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    1. Querida Jussara, obrigado. Além de ser seu fã, lembro-me que fomos contemporâneos (apesar de não ter sido exatamente colegas), na Escola de Música da UFBA.
      Estava atento a essa particularidade da sua vida pessoal, o que para mim fecha um triângulo, pois tive também diversos contatos breves com o maestro, na época em que atuei no Coral da Juventude do Mosteiro de São Bento, além de outros momentos.
      Aliás, acredito que a sua voz e a sua musicalidade estão bem à altura do talento do Carlos Lacerda músico. Continue nos proporcionando seu belo e único canto. Beijos,
      Roberto Luis

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